Ao pesquisar um pouco sobre o assunto em questão pude constatar que as bibliotecas e enciclopédias são fartas de informação, ainda que nem sempre totalmente coincidentes.

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Alguns indicadores de despesismo no seio da igreja estavam a evidenciar-se há algum tempo. Desde o Séc. XII, com a cisão entre a igreja latina e grega, a discórdia nunca deixou de se fazer sentir. Mesmo apesar dos morticínios e massacres desmedidos, vão surgindo aqui e ali movimentos como os Albigenses e os Valdenses, no tempo de Inocêncio III e outros movimentos que se levantam para por em causa Roma e a ortodoxia dos seus ensinos. Algumas vozes, não muito preocupadas com questões doutrinárias, levantavam-se para falar contra o clima de imoralidade que se vivia no seio da igreja, tendo nos primeiros capítulos a compra e venda de cargos religiosos e as indulgências papais capazes de absolver os pecados.

Neste contexto apareceram vários homens de onde se destacou Lutero. Em 1515 era vigário responsável por onze mosteiros. Lutero vivia empenhado na busca da sua salvação, quando encontrou uma nova fé, que enfatiza a graça de Deus e a justificação do ímpio mediante a fé. Apesar de várias ofensivas que Roma fez no sentido de contrariar a reforma protestante, a capacidade de Lutero em fazer discípulos, alguns deles dentro dos próprios conventos, votou à inutilidade todos os esforços romanos. Em contrapartida os conversos eram co-arautos desta nova salvação protestante.

Recorrendo à imprensa, tecnologia de ponta para a época, esforçou-se para colocar a Bíblia no vernáculo, fazendo-a chagar às mãos do povo, permitindo que fosse lido em toda a parte, por ser tido como um livro sagrado.

Lutero não estava sozinho nas suas criticas à igreja e suas lideranças. Antes e depois dele estes ideais proliferaram por toda a parte, de onde o nosso país não é excepção, basta que para isso leiamos as obras de Gil Vicente, com o seu expoente máximo no Auto da Barca do Inferno. “Gil Vicente à data da publicação dos seus autos mais anticlericais, não teria tido tempo para tomar conhecimento das doutrinas de Erasmo e muito menos das de Lutero. (…) Concordamos com o “sentido erasmista” que lhe é atribuído porque se dirige mais à corrupção do clero do que às doutrinas de Roma…”[i]

Com o trabalho de Lutero e outros reformadores, cresce um apetite bastante grande pela posse da Bíblia. “Embora o sínodo de Tolosa, de 1229, proibisse que os homens laicos possuíssem cópias da Bíblia em qualquer língua, mesmo em latim, existia uma tradução completa na ‘langue d’oil’ por volta 1300”[ii]

O panorama político desta época em nada era parecido com a época medieval que lhe fora antecedente. A partir do século XV a civilização toma consciência de novas terras no seu globo terrestre. O regime feudal estava claramente em decadência, novas nações e estados surgiam por toda a Europa, fortes no seu sentido de nacionalidade, não aceitando de forma alguma a ingerência da igreja na sua acção de governar, (razão porque muitos desses estados aceitaram rapidamente a Reforma, sabendo ser possível deste modo controlar igrejas nacionais, independentes de Roma e do seu domínio).

Neste clima de crescente discórdia com as ideias pontificais surge um outro problema grave, o aumento das necessidades de fundos para fazer face ao orçamento de Roma. Assim Lutero apesar de excomungado pela Santa Sé e ameaçado de fogo e espada tinha o respeito e protecção dos príncipes que viam os seus estados e cidadãos despojados dos seus bens, para cumprir com as tributações impostas por Roma, olhando para o reformado com alternativa ao papa.

Por toda a Alemanha, João Tetzel, frade dominicano, servindo o papa, surge vendendo as “indulgências  papais”, que absolviam pecados em troca de avultadas somas de dinheiro, que revertiam em favor dos cofres de Roma.

A actividade de Tetzel terminava, porém nas fronteiras da Saxónia eleitoral, pois Frederico –o-Sábio não autorizou a venda de indulgências no seu território. Todavia como os habitantes de Vitemberga estavam ao corrente das facilidades que o dominicano oferecia às almas em perigo, Lutero sentiu necessidade de alertar os teólogos e de os convidar a reflectir no problema, o que fez em 31 de Outubro (ou 1 de Novembro) de 1517 nas suas 95 proposições sobre «a virtude das indulgências»[iii]

Schwanitz  pormenoriza de forma resumida o que impulsionou Martinho Lutero a afixar as 95 teses: “Aí ocorreram as pessoas da cidade próxima de Wittenberg e ouviram o seu slogan publicitário: «mal o dinheiro na caixa ressoe, a alma para o céu saltou» e compraram. Mas como tinham dúvidas quanto à validade teológica dos ditos certificados, ocorreram à universidade de Wittenberg…”[iv] Ao que o professor respondeu no dia seguinte afixando as teses.

 Gostava de ocupar os caracteres que me restam, com as 95 teses, texto que enceta a fase pública da reforma de Lutero e documento de trabalho para análise dos seus ideias e contestação. As teses apresentadas vêm divididas em quatro grupos que serão abordados cada um por si.

 O primeiro, onde se encontram as teses 1 a 6 aborda a relação entre a penitência ou arrependimento[1], face à sua validade sem a mudança de vida descrita em tal arrependimento, apresentada pela expressão “mortificação da carne”. Na sua sagaz contestação da autoridade do papa, Lutero vai dizer que este não está habilitado para perdoar a culpa, bem notória na tese 6. Era sem dúvida uma chamada de atenção para a podridão moral existente a que a igreja apresentava como porta o pagamento de velas, rezas e somas de dinheiro.

Nas teses 26 a 28, Lutero contestou a autoridade do papa como possuidor das chaves do céu, mas vai também contestar os pagamentos impostos pelos fiéis a troco da sua salvação. Como afirma Green “Dum modo geral, a religião tornara-se mais mecânica e materialista do que fora antes.”[v] De forma directa tenta desmascarar o interesse pelo lucro como uma única vantagem das indulgências visto não conferirem real absolvição da culpa.

Nas teses 42 e 43, o amor ao próximo e as boas obras de caridade são altamente valorizadas face às indulgências. Mostrando como a corrida às indulgências era falaz enquanto que uma vida piedosa e de boas obras tem um valor muito mais excelente.

No último grupo apresentado que compreende as teses 62 a 68, Martinho Lutero vai contrapor os tesouros da igreja. Por um lado apresenta o que na sua noção deveria ser o tesouro da igreja, o evangelho da glória e da graça de Deus que deveria levar o homem, com destaque para os clérigos para a humildade, por outro lado apresenta Roma interessada num caminho opositor ao da humildade, preocupado com o lucro afirmando mesmo: “os tesouros das indulgências, por sua vez, são redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens”[vi]

 Foi realmente este o trabalho que procedeu uma chuva de panfletos e troca de acusações com críticas pouco amistosas e ameaças constantes onde não só estiveram presentes os interesses e ideários teológicos, mas também os sociais políticos e sobretudo os dos príncipes alemães.

 


[1] A expressão penitência aparece em traduções  como a do Pde Matos Soares, contudo noutras traduções aparece a expressão arrependei-vos, como é o caso da Boa Nova.


Obras citadas
[i] RIBEIRO, Joel, RIBEIRO, Eduardo, Precursores da reforma em Portugal, Lisboa, Núcleo, 2001, Pág. 36
[ii] NICHOLAS, David,  A evolução do mundo medieval, Lisboa, Publicações Europa América, 1999, Pág. 524
[iii] STAUFFER, Richard, A Reforma (1517-1564), Lisboa, Livros do Brasil, 1970, p.27
[iv] SCHWANITZ, Dietrich – Cultura, tudo o que precisa saber, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 8ª edição, 2007, pág. 114, 115
[v] V. H. H. Green, Renascimento e Reforma. A Europa entre 1450 e 1660, Lisboa, Pub. D. Quixote, 1991, p. 128
[vi] Tese 66