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Neste texto abordo o processo de cristianização do império Romano, nos séculos IV e V, com as suas implicações políticas e religiosas. Sem dúvida que estamos a falar de uma mutação paulatina começando no cristianismo perseguido, torturado e encarcerado nas catacumbas, passando pelo cristianismo tolerado e até ajudado e terminando com o Cristianismo como a religião do império.

Constantino mostra-nos as evidencias do inicio de um processo, onde o imperador se mostra convertido ou pelo menos simpatizante do cristianismo, impondo a sua nova crença ao seu exército que através do crisma nos escudos se começou a identificar com esta nova orientação religiosa. Realmente esta vitória foi importante, do ponto de vista religioso da época, uma vez que se disputava não só o lugar de imperador mas a ala religiosa a que cada um dos candidatos a imperador estava: Constantino ou Maxêncio ligado ao lado pagão e que certamente acarretaria mais perseguição e mais restrições para os cristãos.

Existe controvérsia suficiente sobre a sustentabilidade desta conversão. Se é certo que o batismo representava uma porta de entrada, é também certo que Constantino só o fez no leito da morte. Por outro lado não existe referência a que Constantino tenha ingressado em alguma igreja, mas antes, colocou-se a par dos sacerdotes cristãos passando de noviço (novo convertido) a sacerdote de topo. Dispondo de uma igreja cristã só para ele, apresentava-se publicamente como o mais devoto dos cristãos, evidenciando isso nas suas leis, discursos, gestos e hábitos.

“Ocupava uma posição inédita que só podia ser a do soberano, comportar-se-á bem depressa como uma espécie de “presidente” da igreja, com a qual tem relações de igual para igual: chama aos bispos “meus caros irmãos”, mas não é seu filho.”[i]

A partir da conversão de Constantino a igreja cristã começou a usufruir de uma quantidade de benesses de origem legislativa que evidencia ainda mais a posição do imperador. Logo no ano seguinte à batalha na Ponte Mílvios, é publicado o édito de Milão que “conferia tolerância aos cristãos e lhes devolvia as propriedades eclesiásticas, que tinham sido confiscadas. Assim terminou o período de perseguições imperiais contra o cristianismo, que se prolongara por duzentos anos, e então começou o levantamento político da igreja”[ii]

O impacto da postura de Constantino na população foi capaz de promover conversões em quantidades bastante elevadas. Se no inicio o cristianismo foi apenas liberalizado e colocado em pé de igualdade com o paganismo, uns anos mais tarde, o paganismo, foi restringido de tal forma, até à sua total proibição que veio a acontecer pelas mãos de Graciano (375-383) e concluída por Teodósio (388-395). Ao longo deste processo foram sido concedidos privilégios aos que professavam o cristianismo, assim como às igrejas cristãs, funcionando como mais um incentivo à mudança religiosa.

Nestes desenvolvimentos todos procuravam ganhar alguma coisa. Para Constantino a unificação do império era algo importante. A via religiosa era sem dúvida uma das formas de unificação eficazes. A partir de práticas religiosas, educação cristã desde a mais tenra idade e ainda por cima dispor de um grupo de bispos que de uma forma ou de outra acabariam por estar debaixo da sua alçada era algo que o ajudava no seu intento de domínio sobre o império.

Ainda debaixo do poderio de Constantino, com o desenvolvimento do cristianismo ao longo do império começam a surgir alguns focos de instabilidade com o rosto da heresia, sentando-se na primeira fila um tal de Ário. Agora colocava-se a questão ao imperador o que fazer? A unidade e estabilidade estavam postas em causa por querelas teológicas. Deu-se então o primeiro concílio ecuménico ou universal, onde os sacerdotes da igreja de todas as regiões estavam mais ou menos representados, aqui foi examinada a doutrina Ariana e condenada. Logo e pelo lugar que ocupava na igreja, “Constantino demitiu, a partir de 330, os bispos nicenos, voltou a chamar Ario e reabilitou-o antes de morrer sendo batizado por um Ariano.”[iii]

Esta ligação entre os bispos e o imperador passou a funcionar, partilhando poderes, ambições e políticas. Se por um lado os concílios tomavam as suas decisões, com maior ou menor ingerência do imperador, por outro lado este legislava para que esta pudesse ter efeito sobre os cidadãos. Simultaneamente enquanto chefe das forças militares mandava que fossem tomadas medidas para que as suas leis fossem executadas.

A outra forma de ingerir era pelo uso da força financeira. Muitos dos colégios eram pagos pelo estado romano, que mediante a orientação religiosa do imperador era uma contribuição mais contida ou reforçada. Ao mesmo tempo e sobre o pretexto do financiamento, ingeria nas decisões destes colégios. Alguns imperadores foram ao ponto de nomear um corpo docente da sua confiança.

A construção de imóveis de vulto foi outra pressão que o imperador fez a favor do cristianismo. Os grandes templos já não eram às divindades romanas antigas, mas eram templos cristãos. Esse impacto era como que uma mostra de credibilidade do cristianismo face às ideologias concorrentes.

Os símbolos do estado passaram a possuir um background cristão. Nos espaços especiais do estado e do imperador, foram retirados os símbolos do antigo paganismo para começaram a ser introduzidos símbolos cristãos.

[i] Veyne, p.88

[ii] Champlin, p.266

[iii] Tourault, p.51

Referências Bibliográficas

CORBIN, Alain (dir.), História do Cristianismo, Lisboa, Editorial Presença, 2008

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, São Paulo, Editora Hagnos, 2001

DELUMEAU, Jean (dir.), As Grandes Religiões do Mundo, Lisboa, Editorial Presença, 1997

Knight, A., História do Cristianismo, 7ª edição, Rio de Janeiro, CPAD, 1996

LINDBERG, Carter, História do Cristianismo, Lisboa, Editorial Teorema, 2007

TOURAULT, Philippe, História Concisa da Igreja, Mem Martins, Publicações Europa América, 1998

VEYNE, Paul, Quando o nosso mundo se tornou cristão, Lisboa, Edições Texto&Grafia, 2000