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A história do povo judeu desde a sua génese é escrita por uma sequência de ruturas e continuidades. A presença ou ausência do templo, materializada em destruição e edificação, aparece como um fator determinante na vida política e religiosa dos judeus. É interessante olhar para o ponto de continuidade, ou seja a Torá, ofertada por Deus aos judeus, mesmo antes de lhes ser provido um espaço nação, assim como a importância que a Torá continuou a ter mesmo quando eles perderam o seu espaço novamente. Como afirma Paul Johnson: “As reformas de Josias, o exílio, o regresso do exílio, a obra de Esdras, o triunfo dos Macabeus, a ascensão do farisaísmo, a sinagoga, as escolas, os rabis – todos esses acontecimentos haviam sucessivamente primeiro estabelecido, depois gradualmente consolidado o absoluto domínio da Torá na vida religiosa e social judaica”[i]

Ao olhar para a terra santa foi verdadeiramente uma conquista nos dias de Josué, uma oferta nos dias de Abraão, um reapropriar nos dias de regresso do cativeiro em Babilónia, uma luta pela manutenção nos dias dos Macabeus e uma perca nos dias de Tito.

Daí a tentativa de tentar conciliar estas três dádivas, a Torá, a Terra Santa e o templo, percebendo o facto de que quando se afastaram da Torá perderam o resto e nunca mais conseguiram apropriar-se como nos dias de Salomão ou de Ezequias. Apesar dos avisos de Jeremias, foi o esforço de Ezequiel, com um texto tão prodigioso, quanto enigmático e complicado que trouxe os judeus de volta à Torá.

A rutura apresentada e à qual irei dedicar um pouco mais de atenção foi despoletada pela destruição que o general Tito infligiu à cidade de Jerusalém, no ano 70 da nossa era, destruindo por completo a cidade incluindo o templo. Os seus habitantes foram dispersos. Sem templo e sem terra necessitavam de um novo incentivo religioso que não deixasse a sua fé desaparecer, sendo as sinagogas um instrumento basilar permitindo que o povo pudesse intensificar os seus estudos, exercitar a oração e a caridade, mesmo sem os sacrifícios do templo, em qualquer altura e em qualquer parte do mundo onde se encontrassem.

Realmente não foi a primeira vez que o povo ficou sem templo, pois o primeiro tinha sido construído por Salomão, destruído pelo exército Babilónico nos dias dos profetas Ezequiel e Jeremias, reconstruído no tempo dos persas, “é também chamado de templo de Zerobabel.”[ii] e destruído no tempo de Antioco Epifaneo, “sua insaciável avareza fez com que ele não temesse violar-lhes também a fé, despojando o templo das muitas riquezas de que, sabia ele, estava cheio… afinal nada lá deixou”[iii] . Este templo que ficou tão desprezado e maltratado pelo novo uso que lhe foi dado pois “mandou também construir um altar no templo e ordenou que lá se sacrificassem porcos…”[iv], foi reconstruído por Herodes, o grande, sem o derribar, sendo acrescentados sucessivos melhoramentos pelos seus sucessores.

Nos dias de Tito existia o templo, festas religiosas, sacrifícios, sacerdotes, a imponente Jerusalém e vários partidos que disputavam não só o poder mas a forma como o judaísmo deveria ser seguido. Com a investida de Tito tudo veio a mudar.

Se começarmos pelas sinagogas, falamos de instituições providas de um edifício que existiram em simultâneo com o templo e continuaram depois deste ter sido reduzido a cascalho. “Quando o judaísmo foi finalmente constituído, em todas as comunidades judaicas da palestina, da Diáspora e em Jerusalém, até ao lado de Templo, havia edifícios onde não se celebrava nenhum culto sacrificial mas onde havia reuniões para oração e para leitura dos ensinamentos da Lei, essas são as sinagogas”[v]. Este equipamento servia o meio para pôr em prática a mensagem de Ezequiel: “só havia salvação através da pureza religiosa.”[vi] Este ensaísta de viver sem templo, exilado, sem pátria e sem sacrifícios, explicou à sua posteridade que isso era algo possível.

Assim por todos os lugares onde os judeus andavam dispersos a sinagoga representou um elo de coesão do judaísmo, visto que divulgou entre os pagãos a crença e o culto monoteísta. Com a implantação da sinagoga numa cultura gentílica, esta representava mais do que um lugar de culto. Era a escola, o lugar de convívio, um espaço onde se mantinha viva a língua hebraica, onde se tratava do apoio social aos órfãos e viúvas. Era um pouco de Jerusalém noutro qualquer lugar do planeta. Tito acabou com o templo, com os sacrifícios, com todo o staff do templo, contudo não acabou com as orações e estudos da Torá, que permaneceram pelos séculos como meio de interligação entre os judeus, dando-lhes uma identidade enquanto nação, mesmo que sem pátria, e enquanto religião. Poderemos resumir com a expressão: o judaísmo adaptou-se, mantendo-se fiel à Torá.

Aparece a par das sinagogas o trabalho de ensinar e preservar a Lei. Com a urgência de estudar, copiar e ensinar a lei durante e após o exílio babilónico, surge uma nova classe de eruditos, apelidados de escribas, como encontramos no livro de Esdras: “…este Esdras subiu de Babilónia. E ele era escriba hábil na lei de Moisés, que o Senhor Deus de Israel tinha dado; e segundo a mão do Senhor seu Deus, que estava sobre ele, o rei lhe deu tudo quanto lhe pedira…”[vii].

Agora longe da sua terra, muitos anos depois de Esdras, era necessário mais do que a tradição oral para passar às gerações vindouras os ensinos da Torá e os preceitos judaicos. A tradição oral, no terceiro século, já havia sido compilada para poder ser acessível a todos os judeus mesmo os que habitavam as zonas mais remotas, recebendo o nome de Mishná. Claro que a Torá continuou a ser para os judeus a palavra revelada de Deus, seu valor era inquestionável, mas era necessária a sua interpretação e adaptação ao quotidiano atual, bem diferente do quotidiano de Moisés no deserto. Foram desenvolvidos dois Talmudes, o primeiro por volta de 400 d.C. e o outro por 500 ou 600 d.C., o Talmude de Jerusalém e o Talmude da Babilónia respetivamente. Estes documentos não são fruto de um dia, mas o juntar do trabalho de estudiosos ao longo de muitos anos, constituindo-se numa ajuda às comunidades judaicas desejosas de praticar a verdadeira religião e que por isso se dirigiam frequentemente às sinagogas espalhadas pela diáspora para a aprender.

Se Tito não tivesse oferecido aos judeus este momento duradouro de rutura, eles continuavam sectarizados entre os seus partidarismos como: os saduceus, os fariseus, os zelotes e os essénios; acrescentados de alguns outros que entretanto surgiriam. Cada um disporia da sua ideia, de forma déspota, lutando pela preponderância no templo e diante do povo, discutindo mais problemáticas secundárias do que a essência da sua própria fé, centrando a sua crença no sacrifício de inúmeros animais de forma continuada, nos sacrifícios do templo, não se alienando das festividades inerentes.

Provavelmente os anos teriam roubado a atenção da essência da prática do Pentateuco e concentrado num qualquer pormenor dos rituais do templo.

[i] Johnson, p.156

[ii] Champlin, Vol. VI, p. 341

[iii] Josefo, livro XII, Cap. 7, P. 561

[iv] Josefo, livro XII, Cap. 7, P. 562

[v] Vaux, p. 382

[vi] Johnson, p.91

[vii] Esdras 7:6

Referências:

Champlin, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Editora Hagnos, 2001.

Coleman, William L. Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos. Belo Horizonte: Editora Betânia, 1991.

herzog, Chain, e Mordechai Gichon. As Grandes Batalhas da Bíblia: Uma História Militar do Antigo Israel. Porto: Fronteira do Caos, 2008.

Johnson, Paul. História dos Judeus. 2ª. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

Josefo, Flávio. História dos Hebreus – Obra completa de Josefo. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Vaux, R. de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. S. Paulo: Editora Teológica, 2003.

Wigoder, Geoffrey. Dictionnaire Enciclopédique du Judaisme. Paris: Les Éditions du Cerf, 1993.