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Nos dias que vivemos algumas pessoas falam de crise de identidade no domínio religioso.

Rompendo com os modelos de religiosidade assentes nos substratos de ancestralidade familiar, a integração na “igreja” implicava uma resposta pessoal. De modos diversos, os contextos de adaptação criativa das Igrejas aos processos de modernização social voltam a confrontar-se com o problema da gestão eclesial das formas de comunalização das identidades crentes. A emergência de uma cultura de forte afirmação de valores individualizantes e personalizantes e a alteração dos regimes de socialidade nos contextos sociais pós-industriais exigiu a criação de formas diversificadas de integração das diversas trajetórias crentes – nesse sentido, a caracterização da identidade católica passou a exigir a distinção entre os que estão integrados num determinado dinamismo associativo dentro do campo religioso e os que gerem a sua pertença católica de outro modo. (TEIXEIRA, Alfredo, Novos Movimentos Católicos, Janusonline, 2007, acedido em 13 de Maio de 2011, em http://www.janusonline.pt/2007/ 2007_4_2_9.html)

Hervieu-Léger no seu livro O peregrino e o Convertido apresenta-nos quatro dimensões da identificação religiosa, que não são propriamente complementares mas antes pelo contrário o autor desenha cada uma num dos pontos cardeais e descreve alguns pontos de tensão entre elas.

A primeira das quatro dimensões é denominada por dimensão comunitária. Esta é descrita como aquela que possui um grupo de requisitos que os seus membros devem cumprir para que possam pertencer de forma efetiva à comunidade de fiéis, assim por estes traços serão identificados os membros de um determinado grupo religioso, uma vez que aceitaram as marcas sociais e simbólicas, que fazem a diferença dos que pertencem e dos que não pertencem. Como exemplo temos a apologia do apóstolo Paulo como judeu: “É verdade que eu também poderia pôr a minha confiança nessas coisas. Se alguém pensa que pode confiar nelas, eu tenho ainda mais motivos para pensar assim. Fui circuncidado quando tinha oito dias de vida. Sou israelita de nascimento, da tribo de Benjamim, de sangue hebreu. Quanto à prática da lei, eu era fariseu.”[i]

A segunda dimensão está ligada com os valores transmitidos pela mensagem religiosa e é apelidada de dimensão ética. Esta dimensão apresenta a capacidade do crente poder aceitar e até defender os valores defendidos na mensagem de uma determinada religião sem contudo pertencer a uma comunidade de fiéis. Dentro do universo de igrejas cristãs existem mensagens que são comuns e que são aceites por indivíduos que não se revêem em nenhuma igreja, mas aceitam e adoptam a mensagem com os seus princípios.

A terceira dimensão, a dimensão cultural, está ligada com a noção de posse ou de património próprio. Este património está ligado com o corpo doutrinário, as obras bibliográficas, os saberes, a história e os códigos rituais; assim como também passa por representações do modo de pensar que se traduzem nas práticas da comunidade, como por exemplo: nos hábitos alimentares, vestuário, sexo e práticas terapêuticas. Todo este acervo, com origem na religião é considerado “bem comum cultural”, não querendo dizer que o indivíduo tenha forçosamente de pertencer a uma comunidade de fiéis nem tão pouco como crente de uma qualquer fé.

A última e quarta dimensão é a dimensão emocional que se situa numa área que está de mãos dadas com a parte emocional do indivíduo. Esta dimensão está muito ligada com os grandes ajuntamentos, os ciclos de festas e outros grandes eventos que colocam dentro do indivíduo uma identificação associada à experiência afetiva, podendo formar uma identidade sócio religiosa. Esta identidade coloca cada vez menos no indivíduo uma pertença a uma qualquer comunidade, mas utiliza estes eventos sazonais como balões de oxigénio, capazes de prolongar a identidade do indivíduo com uma religião, sem implicar que passe a pertencer a uma comunidade.

Irei agora abordar dois pontos de tensão entre as dimensões já abordadas.

O primeiro ponto de tensão é entre a dimensão comunitária e ética, onde temos o antagonismo da universalidade da mensagem bem arvorada na dimensão ética e a particularidade identitária da dimensão comunitária. Por um lado a valorização excessiva da singularidade da comunidade leva a que se apresentem como detentores de uma mensagem que intitulam como universal, mas excluem como destinatários de pleno direito todos os que não pertencem à comunidade. Por outro lado, a dimensão ética cria a sua comunidade à medida da amplitude dos potenciais destinatários da sua própria mensagem. Se a mensagem tem uma amplitude universal, então a comunidade será universal, ou seja, não se filiam em nenhuma comunidade por estas estarem entranhadas em ideários de eleição e de exclusão. Sem dúvida que mais difícil do que identificar estes dois polos e seus antagonismos é encontrar aqui um ponto de equilíbrio entre os dois.

O segundo ponto de tensão é entre a dimensão emocional e a cultural. Este é um conflito entre duas formas temporais, a dimensão emocional ancorada com o imediato, ligada com a parte afetiva de onde se vai originar uma crença, mas sem tradição; a dimensão cultural tem por fonte de si mesma as memórias que se constituem como um património que o indivíduo procura guardar, um legado que perdeu muitas vezes a sua origem no tempo e que no imediato funciona como algo frio incapaz de levar o homem a crer. Então temos dois caminhos: crença sem tradição ou tradição sem crença. Se na contradição anterior o ponto de equilíbrio se mostrou algo difícil de conjugar, neste ponto as coisas complicam-se sobretudo porque em ambas as situações existe um real abandono da religião.

Depois de quatro dimensões fica uma infinidade de combinações de cada uma destas dimensões, onde cada indivíduo se situa de acordo com o seu relacionamento com o mundo religioso plural. Os diversos eventos, informes e tradições poderão promover deslocamentos entre as quatro dimensões nas mais variadas direções.

[i] Filipenses 3:4,5; NTLH