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Língua e religião são fatores determinantes da identidade cultural dos povos. Ambas têm estado presentes em todas as épocas e em todas as culturas da humanidade.”[1]

O impacto da língua na cultura tem um peso tão elevado quanto elevada é a forma como a cultura se revela na língua. Franz Boas, antropólogo, “considerou o estudo da linguagem como uma forma privilegiada de acesso ao mundo mental e cultural dos povos[2]. Este conceito foi apreendido por atores dos diversos quadrantes da sociedade, promovendo as mais diversas línguas em variados contextos. Se Fernando Pessoa afirmou que “a minha Pátria é a língua Portuguesa” é porque transportava na sua mente a língua como um fator identitário superior ao espaço.

Alexandre, o grande, ao intentar criar um espaço uniformizado, percebeu que só poderia fazer se conseguisse uniformizar a língua. Mais do que uma imposição foi criado nos diversos povos o desejo de aprenderem Koiné embrulhado nas vantagens que oferecia e na diferenciação entre os que falavam e os que não falavam.

O grego estende-se como única língua de cultura, hasteada pela administração, pelo comércio e pela vida das cidades. As línguas nativas sobrevivem apenas em uso local. O ático, devido ao império de Atenas e ao seu prestígio cultural, impõe-se e espalha-se; é adotado como língua oficial por Filipe, por Alexandre e pelos Diádocos.[3]

 

  1. O hebraico, a religião e a nação judaica

Maurice-Ruben Hayou ao escrever: “Na origem, tudo no judaísmo estava ligado. O solo, a língua o povo e a religião[4] parece denotar um conjunto cultural que se transporta mutuamente e que não existe isolado. Talvez esteja a seguir a linha de pensamento ensaiada por Almeida: “As experiências comuns marcam os cérebros que as partilham, a afetividade desenvolve-se porque nos sentimos em casa com aqueles que sentem como nós. As estruturas profundas da mente de cada um, as tais estruturas culturais, desenvolvem-se em nós e em todos aqueles que vivem no nosso meio cultural”[5]

Com o deslocar da atividade religiosa da unicidade do templo de Jerusalém para as sinagogas, criaram-se bastantes comunidades na diáspora que apenas vinham esporadicamente a Jerusalém por ocasião das principais festas praticando a sua religião a partir das muitas sinagogas espalhadas pelo mundo helenizado. Muitos destes judeus da diáspora utilizavam já dois nomes, um grego e outro judeu, vivendo como gregos na sua terra e praticando o judaísmo. Uma das funções das sinagogas era o ensino do hebraico, o que ainda é feito hoje nas sinagogas ativas pelo mundo. As suas cerimónias são celebradas com leituras nos textos sagrados judaicos em hebraico. Flávio Josefo relata o facto de Tolomeu, ter recrutado um grupo de sábios judeus para traduzirem os escritos sagrados mosaicos[6] para o koiné para que fizessem parte da grande biblioteca de Alexandria.[7] O facto de se ter concretizado esta tradução denota que os judeus não teriam dificuldades na tradução dos textos sagrados para outros vernáculos.

Ao olharmos para o judaísmo como uma religião nacional e para a restauração do estado de Israel, vemos a importância que o renascimento de uma língua morta teve na unificação do povo como escreveu Paul Johnson:

Até ao final do século XIX ninguém falava hebraico como a sua primeira língua. Na verdade a língua falada, havia sido substituída pelo aramaico (a não ser para fins litúrgicos) (…) O hebraico impôs-se como uma língua moderna (…) em parte porque o judaísmo, trabalhando com o hebraico, sempre lidou com uma infinidade de assuntos (…) O hebraico vingou porque era a língua falada pelos integrantes do novo exército. O novo exército vingou porque falava hebraico[8].

  1. Do latim católico às línguas vernaculares protestantes

Começo por falar de Desiderius Erasmo e sobretudo de uma das suas obras importantes e denunciadoras do despesismo que se vivia nos seus dias no seio da igreja – Elogio da Loucura[9]. Depois Erasmos desafia a autoridade da Vulgata Latina, traduzida por Jerónimos, como aludiu Hamel: “the scolary couriosity of Erasmus, however, was aroused by the idea of camparing and judging the Latin of Saint Jerome against the greek original…”[10]

Muitas das questões relacionadas com a reforma apesar de terem um inegável cunho dogmático, de índole religiosa, também jogavam ao sabor dos interesses políticos dos seus interlocutores e da vontade de emancipação da classe intelectual, face a Roma. Como escreveu González: “…conquanto Carlos V fosse católico convicto, não deixou de utilizar a questão e Lutero como uma arma contra o Papa quando este pareceu inclinar-se para o seu rival, Francisco I, da França.[11] Esta insubordinação contra o papa é apresentada pelo mesmo autor ao comentar a dieta de Worms: “…insistiu: “Retratas-te ou não”? Lutero lhe respondeu em Alemão, desdenhando, portanto o latim dos teólogos…[12] Neste desiderato o rompimento com o latim anunciava uma rotura na sujeição a Roma.

…a igreja de Roma da Antiguidade tardia deixou à igreja universal, que é próprio do Ocidente e em que se deve igualmente insistir: o legado da língua (…) é válido também para a língua jurídica – o direito canónico e a sua jurisprudência – que o papado começou a elaborar a partir do século IV, inspirando-se intimamente no direito romano (…) O contributo não foi menor no domínio da língua sagrada. Dâmaso solicitara ao seu secretário Jerónimo que traduzisse para latim as escrituras e, em resposta, recebeu nada menos que a vulgata. Ousou substituir o grego pelo latim nas celebrações, originando assim a elaboração da liturgia romana…[13]

Quando surge a reforma protestante, e na tentativa de cortarem todos os laços de subordinação com Roma, procuram traduzir para os diversos vernáculos a Bíblia a que a igreja responde através do concílio de Trento (1545-1563): “A Vulgata foi proclamada com única edição autêntica das escrituras.[14]” Esta decisão era sintomática do clima que se vivia naqueles dias onde a busca de Roma por um Cristianismo Católico, no sentido de universal, e submetido a Roma era contrastado com um cristianismo nacional, autónomo do poder pontifício. Ao buscar este corte com a cultura da Santa Sé vinha incluído o corte com a língua que se respirava em Roma. Esta situação era maximizada quando se falava do texto sagrado – a Bíblia.

Apesar de na Alemanha se falar o alto e o baixo alemão, por volta de 1200, a supremacia do alto alemão advém do facto de ter sido utilizado por Lutero na tradução da Bíblia, como refere Schwanitz.

O alto alemão, que hoje é falado, é uma variante atenuada do alemão do sul mas que, com a Bíblia de Lutero, paradoxalmente veio implantar-se primeiramente no norte da Alemanha. Porquê? Porque o norte da Alemanha se tornou protestante e passou a ler a Bíblia. Como, para tal, quase se tinha de aprender uma língua nova (afinal ali se falava, em princípio o baixo alemão), o alto alemão foi menos influenciado pelos dialetos locais do que no sul da Alemanha.[15]

O impulso de Lutero com a tradução da Bíblia para o alemão funcionou também como um fator de coesão nacional de consciência de um povo com uma língua própria que os distinguia dos outros. Se por um lado do ponto de vista religioso a importância da Bíblia era maximizada com o lema sola scriptura por outro lado era aumentada a importância da língua vernacular em que a Escritura estava escrita, para pudesse ser entendida por todos.

Uma vez que os protestantes consideravam que a Bíblia era a palavra de Deus, o próprio texto era venerado. E ele não era lido apenas na Igreja, mas igualmente no círculo familiar após as refeições, em homilias familiares e como leitura solitária (…) Deste modo a reforma deu, também neste aspeto, o impulso decisivo para a formação de uma consciência nacional.[16]

  1. Anglicanismo e o cristianismo em inglês

Depois de Henrique VIII, por motivos ligados com a sua vida pessoal, ter terminado com a obediência ao Papa e ter estabelecido uma nova igreja como um projeto nacional[17]. Era importante cortar com as ligações culturais a Roma. O latim era um veículo da cultura romana e de uma igreja organizada piramidalmente com o topo no Papa, situação que a Inglaterra necessitava de mudar.

As traduções da Bíblia foram meios importantes para introduzir as ideias da reforma. William Tyndale (c. 1494 – 1536), um dos tradutores mais influentes, fez a maior parte do seu trabalho enquanto exilado no continente (…) Em grande parte graça à influência de Tomás Cromwell (c. 1485-1540), primeiro ministro de Henrique VIII nos assuntos de estado e religião, e do arcebispo Tomás Cranmer (1489-1556), o rei convenceu-se a dotar todas as igrejas com uma Bíblia.[18]Apesar do anglicanismo não ser tão radical na alteração teológica como os Luteranos ou calvinistas, aos poucos vai-se construindo e afirmando-se como aludiu Bedouelle num “nacional-catolicismo”[19].

Com o interesse crescente de que a igreja anglicana tivesse uma matriz nacional, no início do seu reinado, de James VI, foi pressionada para providenciar uma Bíblia que eliminasse qualquer indício católico e se transformasse na Bíblia de todos os ingleses. Miller & Huber[20] ao referirem-se aos motivos que foram apontados ao rei para a tradução de uma nova Bíblia é que das duas traduções utilizadas uma não era suficientemente protestante e a outra era muito popular.

  1. O mundo muçulmano e a língua árabe

A língua é sem dúvida um fator de união entre os povos. Numa religião como o islamismo é importante que as pessoas encontrem elos de identificação comuns, independente do chão que pisam. Um destes elos é o alcorão que está escrito em árabe e deve ser recitado neste idioma. Por dedução, a língua árabe faz parte das necessidades de educação dos povos muçulmanos, como Azzedine Guellouz escreveu: “o alcorão está omnipresente na vida de cada muçulmano. Está presente na educação da criança, a quem é ensinado desde a mais tenra idade.”[21]

O texto do alcorão que os fiéis são obrigados a conhecer só pode ser escrito em Árabe, língua litúrgica oficial, pelo que há hoje centenas de milhares de crentes (em África, em Portugal, em quase todos os países onde o Islão criou raízes) que repetem palavras decoradas nesta língua, mas sem conhecer o seu significado.[22]

Carmo afirma que alguns nem sabem muito bem o que estão a dizer, por desconhecerem a língua. Contudo o estudo de Maria Emília Santos mostra o empenho de cada pai em ensinar aos seus filhos o árabe, por causa da sua religião e da língua litúrgica em que funciona. Este empenho faz sentido conforme nos explica Onésimo Almeida: “…ao falar uma língua, uma pessoa não utiliza apenas um código abstrato de sons. As palavras e as frases referem-se a algo, significam alguma coisa. As palavras não subsistem no vácuo, mas sim como imagem de uma realidade”[23]

…a língua que um Islâmico estuda é o árabe, visto que, o Alcorão está escrito nesta língua. Independentemente da nacionalidade de qualquer Islâmico, este estuda o árabe, de modo a que possa ler o Alcorão, embora o Livro Sagrado já esteja traduzido em diversas línguas inclusive o português. Qualquer Muçulmano faz as suas orações em árabe, mas, as súplicas a Deus podem ser feitas em qualquer variante fonética (…) Todas as crianças islâmicas, independentemente de saberem ou não árabe, estudam o Alcorão na língua mãe do Alcorão.[24]

A língua é sem dúvida um veículo que transporta de forma eficaz a cultura. Um país detentor de um vernáculo consegue fazer dele um transporte da sua cultura e dos seus ideais. Gabriela Mistral[25], esclareceu a importância da língua: “Todo o país escravizado por outro ou outros países, tem na mão, enquanto souber ou puder conservar a própria língua, a chave da prisão onde jaz”.

Notas

[1] Atlas do Mundo. Lisboa: Durclub, 2004, p. 128

[2] MATOS, Sérgio – A cultura pela Língua. Algumas reflexões sobre a pragmática (inter) cultural e ensino-aprendizagem de língua não materna. Porto: Centro Linguístico da universidade do Porto, 2008. p. 396

[3] FERREIRA, José Ribeiro – Civilizações Clássicas I – Grécia. Lisboa: Universidade Aberta, 1996. p. 223

[4] HAYOU, Maurice-Ruben – O judaísmo. In DELUMEAU, Jean dir. – As Grandes Religiões do Mundo. 3ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2002 p. 233

[5] ALMEIDA, Onésimo Teotónio – O Peso do Hífen – Ensaios sobre a experiência luso-americana. 1ª ed., Lisboa: Imprensa de ciências sociais, 2010, p. 52

[6] Equivalente ao Velho Testamento da Bíblia cristã

[7] JOSEFO, Flávio – Antiguidades Judaicas. In História dos Judeus. 11ª edição, Rio de Janeiro: CPAD, 2007, pp. 523-528

[8] JOHNSON, Paul – História do Povo Judeu. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1995. pp. 271, 572

[9] ERASMO, Desideriu – Elogio da loucura. [em linha], [s.l.]: Atena editora, 2002. Atual. s/d. [consult. 20 mai 2014]. Disponível na Internet: <URL: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/erasmo.pdf&gt;

[10] HAMEL, Christopher – The Book: A history of the bible. London: Phaidon Press, 2001. p. 224

[11] GONZÁLEZ, Justo L. – História Ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores até à era inconclusa. 2ª ed., São Paulo: Edições Vida Nova, 2011. Vol. 2, p. 39

[12] GONZÁLEZ, cit. 34, p.40

[13] GUYON, Jean – Roma christiana, Roma aeterna. In CORBAIN, Alain dir. – História do Cristianismo. Lisboa: Editorial Presença, 2008, p.59, 60

[14] TOURAULT, Philippe – História concisa da Igreja. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1998. p. 217

[15] SCHWANITZ, Dietrich – Cultura: Tudo o que é preciso saber. 8ª ed., Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007. p. 87

[16] SCHWANITZ, cit. 12, P. 117, 118

[17] KNIGHT, A.; ANGLIN, W. – História do Cristianismo. Dos Apóstolos do Senhor Jesus ao Século XX. 7ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p. 273

[18] LINDBERG, Carter – História do Cristianismo. Lisboa: Editorial Teorema, 2007. p. 158

[19] BEDOUELLE, Guy – A via média Anglicana: a lenta construção. In CORBAIN, Alain dir. – História do Cristianismo. Lisboa: Editorial Presença, 2008, p.241

[20] MILLER, Stephen M.; HUBER, Robert V. – A Bíblia e sua história: o surgimento e impacto da Bíblia. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006. p. 178

[21] GUELLOUZ, Azzedine – O Islão. In DELUMEAU, Jean dir. – As Grandes Religiões do Mundo. 3ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2002, p. 292

[22] CARMO, António Duarte de Almeida – Antropologia das religiões. Lisboa: Universidade Aberta, 2001. p. 167

[23] ALMEIDA, cit. 2, p. 47

[24] SANTOS, Maria Emília Batista dos – Religião, Elemento fundamental na identidade do grupo dos alunos do colégio Islâmico de Palmela. Lisboa: Universidade Aberta, 2006. Dissertação de mestrado. p.7, 13

[25]  Nobel da Literatura, de origem Chilena (1889-1957)