O problema da identidade nos dias actuais é algo pelo qual as organizações estão a viver de uma forma geral.

Quando falamos de igreja, esse organismo vivo criado pela pessoa de Jesus Cristo, coloca-se a pergunta, de que forma e com que intensidade as pessoas se estão a identificar com a igreja? Será que todos o fazem da forma correcta? Será que todos os que estão na igreja são crentes ou apenas pertencem a um grupo? Será que todos os que são crentes (no sentido de acreditarem nos valores e doutrinas) pertencem a uma igreja? É sobre esta questão que me irei debruçar nas linhas que se seguem.

Danièle Hervieu-Léger no seu livro O peregrino e o Convertido apresenta-nos quatro dimensões da identificação religiosa, que não são propriamente complementares mas antes pelo contrário o autor desenha cada uma num dos pontos cardeais e descreve mesmo pontos de tensão entre elas. Poderemos acrescentar que nas nossas igrejas nos dias de hoje, cada crente ocupa um lugar intermédio entre estas quatro extremas.

A primeira das quatro dimensões é denominada por dimensão comunitária. Esta é descrita como aquela que possui um grupo de requisitos que os seus membros devem cumprir para que possam pertencer de forma efectiva à comunidade de fiéis, assim por estes traços serão identificados os membros de uma determinada congregação, uma vez que aceitaram as marcas sociais e simbólicas, que fazem a diferença dos que pertencem e dos que não pertencem. Como exemplo temos a apologia do apóstolo Paulo como judeu: “É verdade que eu também poderia pôr a minha confiança nessas coisas. Se alguém pensa que pode confiar nelas, eu tenho ainda mais motivos para pensar assim. Fui circuncidado quando tinha oito dias de vida. Sou israelita de nascimento, da tribo de Benjamim, de sangue hebreu. Quanto à prática da lei, eu era fariseu.” Nesta dimensão não está muito em causa o facto da crença ou do conhecimento que a pessoa tem dos padrões doutrinários antes pelo contrário, está em causa se o indivíduo deseja cumprir uns certos rituais e poder identificar-se e ser identificado com uma dada comunidade. Aqueles estão muito próximos deste pólo e por isso muito distanciados de todos os outros, estão ligados à igreja por vínculos de índole religiosa, mas estão longe de Deus.

A segunda dimensão está ligada com os valores transmitidos pela mensagem religiosa e é apelidada de dimensão ética. Esta dimensão apresenta a capacidade do crente poder aceitar e até defender os valores defendidos na mensagem de uma determinada religião sem contudo ser imperativo pertencer a uma comunidade de fiéis. Dentro do universo de igrejas cristãs existem mensagens que são comuns e que são aceites por indivíduos que não se revêem em nenhuma igreja, mas aceitam e adoptam a mensagem com os seus princípios. Aqui entramos numa das maiores contradições, como pode alguém aceitar a mensagem Bíblica e ficar fora do plano bíblico para o crente, a saber, pertencer a uma igreja? É bastante fácil alguém advogar que se identifica com princípios, mas é mais difícil aceitar a vivência de uma comunidade feita por pessoas, que muitas vezes nos magoam, apenas porque como nós são pessoas. Os indivíduos que estão muito próximo desta extremidade, conhecem o evangelho, mas querem vivê-lo à sua maneira e o tempo encarregar-se-á de fazer desaparecer o pouco que têm dentro deles.

A terceira dimensão, a dimensão cultural, está associada com a noção de posse ou de património próprio. Este património está ligado com o corpo doutrinário, as obras bibliográficas, os saberes, a história e os códigos rituais; assim como também passa por representações do modo de pensar que se traduzem nas práticas da comunidade, como por exemplo: nos hábitos alimentares, vestuário, sexo e práticas terapêuticas. Todo este acervo, com origem na religião é considerado “bem comum cultural”, não querendo dizer que o indivíduo tenha forçosamente de pertencer a uma comunidade de fiéis nem tão pouco como crente de uma qualquer fé. Se a segunda dimensão está ligada com o modo de viver sem ter por base um conhecimento profundo e teológico, mas antes uma ideia fundada no que alguém lhe disse ou no que é suposto ser correcto fazer, a terceira dimensão por sua vez está ligada com o conhecimento, que poderá eventualmente afectar os comportamentos. Está ligada com um grupo mais esclarecido, na sua maioria, e que procura saber de tudo, mas isso não significa que pertença a alguma igreja ou que seja crente (no sentido de acreditar nos conhecimentos doutrinários que possui), apenas procura conhecimento e a sua identificação está apenas no que sabe.

A última e quarta dimensão é a dimensão emocional que se situa numa área que está de mãos dadas com a parte emocional e afectiva do indivíduo. Esta dimensão conectada muitas vezes com os grandes ajuntamentos, os ciclos de festas e outros grandes eventos que colocam dentro do indivíduo uma identificação associada à experiência afectiva, podendo formar uma identidade sócio-religiosa. Esta identidade coloca cada vez menos no indivíduo uma pertença a uma qualquer comunidade de forma continuada, mas utiliza estes eventos sazonais como balões de oxigénio, capazes de prolongar a identidade do indivíduo com uma igreja ou igrejas, sem implicar que passe a pertencer a uma comunidade. Normalmente estas pessoas estão disponíveis para estar juntos da comunidade em momentos especiais, mas não vivem na comunidade de forma quotidiana. Alguns, vivem de uma ou várias experiencias bolorentas pelos anos, experiencia de baptismo com Espírito Santo, de cura ou outra manifestação sobrenatural de Deus e o que os associa com a igreja é apenas isso. São potencialmente saudosistas e festeiros, mas muito pouco disponíveis para aprender de Jesus e segui-lo.

 

Claro está que cada um destes pontos têm pontos muito positivos e são necessários para uma identidade saudável, contudo a polarização num deles leva o crente a deixar de o ser e a ficar relegado para um qualquer tipo de simpatia com a igreja dependendo do pólo por onde foi mais atraído.