Inicio do Ministério

Pregação inicial na Galileia Mt. 4: 12-25; Mc. 1:14-20; Lc. 4:14, 15; 42-5:16; Jo. 4:43-45

Esta pregação inicial, onde Jesus tinha como objetivo tornar-se conhecido e montar a sua equipa, estava impregnada de um apelo ao arrependimento.

 

Preparação para o serviço Mt. 10:1-42

Jesus ensinou os seus doze discípulos em separado porque tinha para eles uma tarefa especial.

Preparou-os para ir, enviados à casa de Israel com uma mensagem de arrependimento e uma chamada de atenção para o facto de ter chegado a hora do Messias se revelar. Envia-os com poder para fazer milagres, mas ensina-lhes como lidar com a perseguição.

 

As cidades impenitentes Mt. 11:20-24; Lc. 10:13-15

Jesus começou então a ensinar os seus discípulos sobre o perigo que era ter contacto com o evangelho, presenciar o poder de Deus, estar em condições de se arrepender e optar pelo contrário. Jesus, nesta altura do seu ministério tinha feito a maioria dos milagres na Galileia e ainda assim o povo não se arrependia de coração, nem abandonava os seus pecados, por isso Jesus pronuncia condenação. Deixa-nos um grande ensino no sentido de percebermos que o nosso conhecimento também nos responsabiliza diante de Deus.

 

Jesus o Filho de Deus que delega poder Mt. 11:25-30; Lc.10: 17-22

Quando os setenta que haviam sido enviados voltaram estavam eufóricos com o que tinham presenciado. Jesus precisa de os ensinar que o poder que eles tinham recebido estava alicerçado no facto de Jesus ser o filho de Deus. Se para os setenta era algo de extraordinário o facto dos demónios se lhes sujeitarem, para Jesus isso não tinha nada de especial porque tinha visto a Satanás cair do céu como um raio, quando da sua queda. Agora Jesus precisava de os transportar da dimensão dos milagres que Eles tinham visto para a dimensão do poder que estava associado à identidade divina de Cristo. Jesus estava-lhes a dizer vocês estão a ter a possibilidade de receber revelação de Deus, através de seu filho Jesus.

 

Quando deliberadamente Jesus parava para ensinar

Sermão do monte Mt. 5:1 – 7:29;

“O discurso conhecido como “O sermão da Montanha”, trata do caráter dos filhos do Reino de Deus, bem como os requisitos para se entrar nele, e encerra conteúdo de inestimável valor.”

Antes de passarmos propriamente dito à análise do ensino proferido neste sermão gostaria de deixar mais algumas particularidades para compreendermos melhor o que foi o sermão da montanha, ou do monte. Para os dias que corriam Jesus proferiu palavras profundas, completamente revolucionárias no seu conteúdo, radicais e até um pouco provocatórias face ao que era hábito entre os judeus naquele tempo.

Lucas apresenta grande parte do discurso deste sermão. No entanto temos uma referência ao lugar um pouco diferente. Enquanto Mateus escreveu: “Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos e abrindo a sua boca os ensinava…”; Lucas escreveu: “E descendo com eles parou num lugar plano, e também um grande número de seus discípulos, e grande multidão do povo de toda a Judeia, e de Jerusalém, e da costa marítima de Tiro e Sidom.”

Tasker apresenta o seguinte: “A expressão “sermão do monte”, pela qual esta secção é geralmente conhecida é algo enganosa, desde que parece mais provável que nestes capítulos o evangelista não esteja registando um discurso único pronunciado de uma só vez, mas sim, reunindo e organizando pequenos grupos de ditos de Jesus sobre o discipulado, exarados em várias ocasiões durante o seu ministério. O facto de muitos dos ditos aqui registados são encontrados em diferentes contextos na narrativa de Lucas confirma esta conclusão. Tal confirmação vem também da opinião generalizada de que dificilmente qualquer mestre condensaria tanta instrução em um só sermão. É pouco convincente a opinião de Chapman (Pag. 216) de que o sermão original pode ter durado tanto quanto uma hora inteira, na sua forma condensada e até três horas, havendo necessidade de desenvolvimentos e explanações… A “lei” prescrita por Jesus não é nenhum código de regras exteriores que possa ser seguido ao pé da letra, mas sim, uma série de princípios, ideais e motivos para conduta, mais consentânea com a “lei”que Jeremias predisse o Senhor haveria de colocar na “mente” dos homens e lhas “inscrever no coração” quando estabelecesse um novo pacto com eles (Jeremias 31:33). O facto de ter Lucas registado uma colecção muito mais breve de ditos sobre o discipulado, embora semelhante, chamada frequentemente “O sermão da Planície” (Lucas 6:20-49), e que ambas as colecções começam com uma série de bem-aventuranças e terminam com a parábola dos odis construtores, é considerada pelos críticos seja na base da suposição de que ambos os evangelistas estivessem extraindo seu material de uma colecção já existente de ditos, a qual Mateus tenha expandido, ou mais raramente, que Lucas tenha abreviado a narrativa de Mateus.” É interessante acrescentar que a data provável para a escrita dos dois evangelhos, Mateus e Lucas, se situa entre os anos 65 e 70, sendo o evangelho de Marcos anterior a esta data.

Se pensarmos no conteúdo do sermão da montanha, e tomarmos por referência primeira o texto de Mateus, por ser o mais completo, podemos ver que o Messias estava a estabelecer princípios organizacionais do reino. Sendo o reino de Deus um reino eterno, Jesus começa com a atualidade do reino. Jesus começa com a expressão μακάριος ‘makarios’, que é uma expressão de interpretação pouco simples e que normalmente é interpretada por bem-aventurados. Tanto James Strong como Thayer apresentam esta palavra associada a duas ideias levadas ao superlativo: ser abençoado e ser feito feliz. Com isto Jesus estava a dizer que quem cumpre os requisitos do reino, no imediato começa a desfrutar das riquezas do reino.

Em segundo lugar Jesus vai falar acerca do compromisso dos cidadãos do reino, mostrando que os que não estão comprometidos com o reino servem para deitar fora, contudo os outros servem para engrandecer e mostrar o reino junto dos estrangeiros, como o sal ou a luz.

Em seguida, Jesus vem divulgar o seu compromisso com a sua palavra, nomeadamente o Velho Testamento, apresentando-se não apenas como defensor da Tora, mas como um defensor da ideia da lei. Muitas pessoas religiosas do seu tempo estavam a cumprir exteriormente a lei para que pudessem ser aceitas e vistas como importantes e cumpridoras, mas na verdade não cumpriam o espírito da lei. A sua abrangência da lei não se baseia em atos, que outros possam ver e julgar, mas vai mais além, uma vez que começa no coração do homem e nos seus pensamentos e sentimentos. No versículo 48, do capítulo 5, Jesus deixa a ideia acerca da função da lei, fazer com que o homem seja perfeito, como perfeito é nosso Pai que está no céu.

Quando chegamos ao capítulo 6 o discurso começa a tomar uma cor mais intimista. Jesus altera a vivência dos cidadãos da vivência do reconhecimento público, orientada para a ostentação e a hipocrisia para a vivência do reconhecimento do reino de Deus, que tem a ver com um relacionamento pessoal e intimo com Deus. Coloca as esmolas, a oração e o jejum como algo que deve ser entre o cidadão do reino e Deus ao contrário do era feito naqueles dias em que estas coisas eram feitas para que os outros pudessem ver. Ainda sobre a oração Jesus valoriza-a de tal forma que dá um conjunto de instruções aos seus discípulos, que formaram um conjunto de orientações para os cidadãos do reino.

Na continuação Jesus refere as ambições do reino. Jesus afirma que a nossa riqueza está no lugar onde está o nosso coração, ou seja a nossa maior atenção estará nos bens terrenos se o nosso coração estiver nas coisas deste mundo, no entanto se o nosso coração estiver no reino de Deus o nosso coração estará nas coisas que são de Deus. Ao mesmo tempo nos lembra que o mesmo Deus que cuida das aves do céu cuidará dos cidadãos do reino dos céus.

Na última parte do sermão Jesus vai falar de relacionamentos no reino. Os julgamentos, o relacionamento de Deus para com os cidadãos do reino, que não é como o de um governante mas como o de um pai. O relacionamento com todos os outros cidadãos é ainda aflorado rapidamente em Mateus 7:12. A partir do verso 15 Jesus vai falar acerca do relacionamento com aqueles que se tentam infiltrar no reino mas são falsos, ainda que pareçam verdadeiros profetas. É interessante que no meio destes textos ligados com a parte referencial, Jesus apresenta as duas portas e os dois caminhos, o estreito e o comprido. O estreito como que mostrando o mais difícil, mas o que conduz à vida eterna. Ao fazer esta alusão parentética Jesus estava a dizer que não estava a apresentar facilidades estava antes a apresentar algo difícil mas compensador.

O final do sermão aparece com uma parábola. Agora que tinha sido ministrado o ensino ficava uma parábola, mostrando como era prudente para o homem pôr em prática o que tinha aprendido. Não bastaria ouvir as palavras do Mestre, mas era necessário praticá-las para que a casa tivesse estrutura suficientemente sólida e não viesse a ruir. Socorre-se então da construção, como que dizendo quem de vós acha prudente alicerçar a sua casa na areia, não será melhor alicerçar sobre a rocha? Assim será aquele que escuta as minhas palavras e as pratica. A inundação e as ventanias que se apresentam como ameaça a ambas as casas destruíram a que está construída sobre a areia mas não terão capacidade de destruir a que está construída sobre a rocha.

 

Jesus declara aos discípulos quem é e qual o seu ministério Mt. 16:13-23; Mc. 8:27-33; Lc. 9: 18-22; Jo. 6:66-69

Este texto começa com uma pergunta universalista de Jesus acerca da sua própria identidade. É interessante notar que apesar de tantos milagres já terem sido efetuados por Jesus, as pessoas faziam muitas conjunturas acerca da sua identidade mas só os discípulos o reconheciam como o enviado de Deus, o Messias. Assim podemos ver como este grupo tão restrito já estava mais à frente no conhecimento sobre Jesus do que os demais, por isso Jesus levou-os para o capítulo seguinte, ou seja a parte mais importante da sua missão como enviado de Deus. “De acordo com o contexto, trata-se do ensino aos discípulos, não em público (cf. Mc. 4:10). O ensino particular era bem conhecido no judaísmo. Nem todos os assuntos eram apropriados para todos (Jeremias, Theologie, p. 243ss). Neste caso, o objeto do ensino, bem diferentemente dos costumes judaicos, era o próprio Jesus como o filho do homem… Jesus coloca este título directamente no lugar do “Messias” de Mc. 4:29. Ele não repete a palavra “Messias”, mas também não o suspende.” Jesus precisava de os transportar da visão do Messias triunfante que vencia e que operava milagres e maravilhas, para o Messias sofredor que iria dar a sua vida por nós. Apesar de já terem percebido a primeira parte do ministério do Messias, mostraram não estarem preparados para entender a segunda. “Os discípulos precisam entender que Jesus sofrerá. A nova realidade é que o caminho da glória percorre a estrada do sofrimento. Os discípulos nunca puderam observar inteiramente essa mensagem até que ela se cumpriu”

 

Jesus dá instruções sobre o custo de o seguir Mt. 16:24-28; Mc. 8:34-38; Lc. 9:23-27

Este texto é um desafio a todos os seus ouvintes. Jesus não afirma o que Ele é ou o que fez, antes com o seu passado recente de milagres e ensino por pano de fundo, Jesus coloca condições para o seguir. É interessante que os três evangelhos relatam o início do texto de forma igual ou seja, colocando o seguir Jesus ligado com a vontade que se materializa na palavra θέλω thelo e que se refere a uma escolha ou preferência baseada na vontade, sendo este termo utilizado por três evangelhos.

Se é certo que os discípulos não estavam preparados para receber Jesus como alguém que daria a sua vida, ao ponto de Pedro repreender Jesus. Agora o Mestre mostra-lhes que eles mesmos, se quiserem seguir a Jesus têm que se desprender de tudo, inclusivamente da sua própria vida.

 

As instruções de Jesus antes da sua paixão

O evangelho de João dá-nos relatos únicos acerca das instruções privadas de Jesus. “Embora João seja mais fragmentário e seletivo em seu uso de material (21.25), a estrutura de suas narrativas e discursos é compacta e mais coerente do que a dos outros evangelhos. Os discursos em João são unidades lógicas que desenvolvem temas unificados, e frequentes perguntas e objeções ajudam a desenvolver esses temas. Estes discursos se acham entretecidos com secções narrativas, e João as usa para explicar a significação espiritual dos “sinais”. Desta forma as narrativas deste evangelho se tornam simbólicas.”

O evangelho de João relata-nos a partir de 12:36 o ministério privado de Jesus Cristo antes da sua paixão, como que sendo uma preparação dos seus discípulos mais próximos para continuar com o seu ministério, através da sua igreja.

Vejamos alguns episódios registados por João: no primeiro Jesus lava os pés aos seus discípulos, no segundo Jesus prediz que Judas o trairá (este episódio aparece também em Mt. 26:21-25 e Mc 14:18-21) e por último a oração de Jesus pelos seus discípulos. A juntar a estes episódios deveremos pensar em imensos ensinos que Jesus intentou deixar e que João condensou nestas narrativas para que os pudéssemos aprender e pôr em prática na nossa vida. Estes discursos finais de Jesus também transmitem algumas das suas preocupações, tendo em conta o seu conhecimento do futuro.

Olhemos para o primeiro acontecimento, no inicio da última semana. Foi sem dúvida uma surpresa para os discípulos o facto de Jesus se levantar e se dispor a lavar os pés aos seus discípulos, pois esse era o trabalho que o mais humilde deveria efectuar. Com este evento Jesus dá uma volta de 180º ao seu discurso, pois até aqui Jesus esteve ensinando que veio do céu enviado pelo Pai, agora começa a ensinar que está na hora de fazer o percurso inverso e voltar para o Pai. Se não foi fácil que os seus ouvintes compreendessem que Jesus tinha vindo do céu agora tinham que perceber que Jesus iria voltar para o Pai. Mais uma vez Jesus parte de algo material que os discípulos, não apenas conheciam, mas também estavam a experimentar, para lhes explicar que existe uma lavagem muito especial que os purifica e que Jesus estava disponível para purificar até Judas, não fosse o seu coração. Deixando o ensino que mesmo pouco antes dele sair e O trair, Jesus ainda estava disposto a purificá-lo, tivesse ele vontade necessária para corrigir os seus maus caminhos!

Ao mesmo tempo numa altura em que o líder do grupo se iria ausentar, poderia aparecer nas suas mentes a ideia de cada um procurar o lugar mais elevado, pelo que Jesus lhes fala acerca da necessidade de humildade.

No verso 31 do capítulo 13 Jesus começou as suas palavras de despedida. Como alguém que se vai ausentar, mas antes disso faz questão de fazer recomendações para que tudo possa correr da melhor maneira. “A cena começa com Jesus realçando a glorificação mútua que vem ao Filho do Homem e a Deus, como resultado do que está para acontecer. Essa identidade inseparável entre o Pai e o Filho é central para a Cristologia Joanina… O conceito principal é o imediatismo da glorificação, a Deus e ao Filho. O relacionamento entre Deus e o Filho é tão íntimo quanto um relacionamento pode ser.”

Para Jesus a glória do Pai era tão importante, que era mote da sua vida, esse mote ele queria passar também aos seus discípulos. Por outro lado, queria passar a certeza de que aquele que glorifica o Pai também é compensado com glória. Nos próximos versos Jesus dirige-se aos onze com toda a ternura, chamando-os de “filhinhos”. Realmente as próximas instruções são dirigidas a um grupo. Jesus vai buscar a instrução Lev 19:18 “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR.” Jesus apresenta agora um novo mandamento dentro da mesma linha temática. “Aqui a expressão grega é ‘kainen’ uma palavra que indica qualidade. Aqui “novo” não significa “mais recente” e sim “superior, novo e de melhor qualidade.”

Em seguida nos capítulos 14 até 17 de João encontramos, talvez, as narrativas mais ricas dos evangelhos, teologicamente falando.

Numa fase introdutória Jesus tranquiliza os seus discípulos e ao mesmo tempo revela a razão desta conversa. Jesus iria separar-se dos seus discípulos, a traição de Judas havia sido anunciada há pouco, Pedro tinha sido avisado que iria negar a Jesus, agora todos aqueles onze discípulos sentiam-se perturbados, e Jesus administra-lhes palavras de tranquilidade: “Não se turbe o vosso coração” e quase sugere uma pergunta “credes em Deus, crede também em mim”. A vossa capacidade de crer deve ser suficiente para afastar a perturbação, contudo quero descansar-vos que na casa do meu Pai há muitas moradas e vocês vão estar lá comigo, porque eu venho buscar-vos. Jesus repisa a ideia de que vai para o Pai. Era importante que os seus discípulos após a sua morte não se vissem desorientados despojados do seu mestre.

Contudo a ideia central desta narrativa baseia-se no “apesar de…”. Apesar de eu ir para meu Pai, vós fareis obras maiores do que estas, pela vitória de Jesus e pelo facto de tudo o que for pedido em seu nome poder ter a resposta do céu. A segunda ideia “apesar de…” conecta-se com a ausência física não ser impedimento de amor. Jesus estava a explicar aos seus discípulos que apesar de estar junto do Pai eles poderiam continuar a amá-lo, guardando os seus mandamentos. O penúltimo “apesar de…” mostra que o facto de Jesus ir para o Pai vai implicar que Ele envie o consolador para que esteja para sempre com os discípulos, sendo clara referência à descida do Espírito Santo. Por último Jesus diz apesar de ir para o Pai, vós me vereis! Esta é a grande esperança da igreja.

No capítulo 15 Jesus vai dar instruções e apelar com veemência para a coesão e perseverança. Jesus começa por falar da videira como exemplo e mostra que existem apenas dois tipos de ramos: os que estão na videira e os que estão separados da videira. Os que estão separados da videira estão mortos, da mesma forma os discípulos apesar da ausência física do salvador deveriam ter consciência de que sem Ele nada poderiam fazer, por isso deveriam perseverar ligados à videira; o segredo de continuar na videira é desenvolvido a seguir pela pressão dos verbos “guardar” e “permanecer”; onde guardar vem associado aos mandamentos e permanecer associado ao amor. Apesar dos problemas, da perseguição, de terem de viver num lugar que não é vosso, mesmo assim o importante é viver na videira.

Ao iniciar o capítulo 16 Jesus avisa de perseguições que os discípulos vão sofrer e logo depois explica-lhes que nunca os desamparou, apesar de agora ir para o Pai irá enviar o consolador, para que os acompanhe e ajude no meio das tormentas.

No capítulo 17, encontramos a oração sacerdotal. Apesar de ser um tempo de oração entre Jesus e o Pai é também para nós o revelar do que estava no seu coração e que Jesus queria que os seus seguidores viessem a sabê-lo. O inicio da oração de Jesus deve ter arrepiado por completo os seus discípulos. Jesus vinha de forma repetida a avisar os discípulos que a sua hora estava a chegar e que ele iria para o Pai. Agora Jesus parece dizer é agora, vou orar e vamos.

O início desta oração tem uma ligação com a glória tanto do Pai quanto do Filho. “No evangelho de João “glória” e “glorificar” são palavras-chave. Os usos do NT refletem um conceito do AT expresso na palavra hebraica ‘Kabod’. Esta palavra expressa a presença ativa de Deus como seu povo, revelando assim quem Ele é e capacitando-nos para louvá-lo por sua natureza e por seu carácter. No uso secular, doxa, a palavra grega, concentrou a atenção na opinião que os outros têm sobre uma pessoa, com base em actos ou em realizações. Assim no discurso normal, doxa, tinha um significado bastante próximo de fama. Mas no NT “glória” expressa um pensamento teológico muito característico e diferente daquele estabelecido no AT. A glória de Deus está enraizada em quem Ele é por natureza, e glorificar a Deus significa exibir a sua natureza em atos que ocorrem no espaço e no tempo.”

Jesus divide esta oração em três vetores:
O primeiro centrado Nele próprio; o segundo centrado nos discípulos e o terceiro centrado na igreja em todos os tempos.

 

A preparação dos discípulos para serem enviados Mt. 5-15

Os discípulos foram enviados às ovelhas perdidas da casa de Israel com uma mensagem: “é chegado o reino dos céus”. Esta era também a mensagem de João Baptista levando o povo ao arrependimento, e anunciando a urgência da hora. Para que os discípulos fossem deveriam ser preparados para o que lhes poderia acontecer.

 

Os discípulos aprendem a orar Mt. 6:9-15; Lc. 11:1-13

Este episódio inicia com o pedido dos discípulos para que o Mestre os ensinasse a orar.

Apesar de ambos os textos conterem a chamada oração do Pai-nosso, ainda que com ligeiras alterações, sendo a de Mateus mais extensa, ficamos com a ideia de Mateus e Lucas se estarem a referir à mesma oração mas ensinada em momentos e contextos diferentes. Em Mateus, Jesus está a dirigir-se a toda a multidão no contexto do sermão da montanha; em Lucas, Jesus responde a um pedido dos discípulos que queriam que os ensinasse a orar. Ao lermos o texto de Mateus 6, um dos ensinos sobre a oração é que não deveríamos utilizar repetições vãs, logo aí fica explicada a diferença entre Lucas e Mateus, visto terem abordado orações diferentes ainda que a ideia que Jesus queria passar era semelhante.

Algumas ideias que permanecem nesta oração são: “A ênfase congregacional é vista no começo da oração no tratamento simples: “PAI” (pater). Jesus se dirige a Deus na sua oração em Lucas 10:21,22 e fez o mesmo em sua oração posterior na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 23:46). Para Ele e os discípulos Deus é Pai, com tudo o que o termo significa. Como os discípulos tratam Deus de Pai, eles afirmam a unidade e a senso de pertencer à sua família. Quando eles oram, os discípulos têm de estar cientes de que eles formam uma comunidade diante de Deus. Eles compartilham as mesmas metas de amor uns dos outros.

Começando a oração com “PAI” também enfatiza uma atitude íntima e centralizada em Deus. As orações judaicas tendiam a pôr uma distância entre os seres humanos e o grande Deus. Diferente delas, Jesus ensina os discípulos a se aproximar de Deus como uma criancinha se chegaria ao seu pai terrestre.”

A segunda coisa que aparece é a preocupação para que o nome de Deus seja santificado. Moody afirmou que “O primeiro pedido refere-se à honra de Deus não às necessidades do suplicante.” O nome de Deus aqui resume todo o seu caráter que deve ser reverenciado e honrado, tratado com a mais alta consideração acessível ao simples mortal. Em seguida Jesus ensina os discípulos a orar para que o reino de Deus possa vir até ao homem, Jesus anunciou que é chegado o reino. Sem dúvida que necessitamos de entender que necessitamos das bênçãos que advém do ministério de Jesus que continua na terra através e para benéfico da igreja.

Em seguida surgem três pedidos: o primeiro relacionado com as nossas necessidades quotidianas terrenas, explicitas nas palavras “dá-nos cada dia o nosso pão quotidiano”; o segundo relacionado com as nossas necessidades espirituais de sermos perdoados por Deus para podermos ter comunhão com Ele, com as palavras “perdoa-nos os nossos pecados”. É relevante o facto de este ser a única sentença que tem condição “pois também nós…” sendo o perdão do homem um reflexo do perdão outorgado por Deus, ou por outras palavras sendo a comunhão com Deus concedida pela via do perdão a capacidade de podermos ter comunhão uns com os outros pela via do perdão.

A última é decorrente da nossa natureza humana que nos inclina para a prática do mal, sendo majorada com frequência pela tentação. Mateus aplica a expressão: “Não nos deixes cair em tentação” ou seja não permitas que a tentação seja tão forte ao ponto de nós não conseguirmos resistir. A expressão “livra-nos do mal”, o vocábulo grego que é traduzido por mal é πονηρός ‘poneros’ e que pode ser traduzida tanto por mal (efeito ou influência) como por maligno. Então Jesus ensinou-nos a orar para que o Pai nos livre da influência do mal e dos efeitos do mal.

Alguns ensinos adicionais foram-nos deixados tanto em Mateus como em Lucas. Em Lucas a partir da parábola do amigo importuno Jesus faz um repto à insistência no pedir e a seguir utiliza o carinho humano para com os filhos no cuidado da alimentação e conclui: “se vós sendo maus sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” era uma alusão à qualidade do Pai que dá.

Já no evangelho de Mateus, surgem outras questões bem diferentes quanto diferenciado era o auditório.

“Jesus enfatizava consideravelmente a oração em secreto (Mt. 6:6). Esse tipo de oração não exclui a participação na oração pública.”

Jesus começa por colocar as condições para uma oração com sucesso. “As três principais obrigações religiosas dos judeus piedosos eram: dar esmolas, orar e jejuar. Os primeiros dezoito versículos do capítulo 6 tratam desses actos de devoção religiosa. Em cada caso há um modo certo e outro errado. Os seguidores de Jesus devem evitar toda a ostentação vaidosa e cumprir suas obrigações em quietude e descrição. Ao desincumbir-se de seus deveres religiosos, os crentes não devem anunciá-los através de propaganda, objectivando atrair atenção sobre si mesmos. Tal atitude poderia privá-los da recompensa celestial.”