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Quando as situações se prestavam para ensinar

Sinagoga de Nazaré Lc. 4:16-30

Jesus lê o texto de Isaías 61:1,2 e identifica-se com o Messias enviado de Deus. O culto da sinagoga era algo muito informal e Jesus, à semelhança do que havia feito ao longo da sua juventude estava na sinagoga, não apenas com espírito de assistente mas com espírito de participante. Ao ler o profeta Isaías, ainda que não nos são dados muitos pormenores da forma como foi selecionado o texto lido, Jesus lê de forma tão convicta que todos os que já tinham ouvido falar dos seus milagres em Cafarnaum ficam a olhar para Ele, deixando a porta aberta para que se identificasse com o texto, explicando aos cidadãos de Nazaré que Ele era o servo a que Isaías se referia.

Centurião de Cafarnaum Mt. 8:5-13; Lc. 7:1-10

Jesus estava rodeado de uma multidão que o seguia mas a sua fé era reduzida. A sua capacidade de compreender estava confinada aos sinais que viam e a amplitude do ministério de Jesus, para eles, era monopólio dos Judeus. Agora surge um homem que não era Jesus mas que conseguiu ver um pouco mais longe através da sua fé acreditando e evidenciando o poder na palavra proferida por Jesus como portadora de poder e autoridade. Aproveitando este rasgo de fé Jesus ensina aos que o seguiam: “Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé. Mas eu vos digo que muitos virão do Oriente e do Ocidente e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no Reino dos céus; E os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores; ali, haverá pranto e ranger de dentes” (Mt. 8:10-12). Este discurso era tão duro para os judeus quanto original. Era a contraposição do discurso do povo eleito, descendente de Abraão. A par desta dureza surge uma mensagem de esperança para os gentios, figurado na expressão “…muitos virão do Oriente e do Ocidente…”, ou melhor, surge um deslocar do objeto de fé da linhagem de Abraão para Jesus, descendente de Abraão e de David, como fonte de salvação universal. A situação mostrou-se como que confirmadora das palavras de Jesus, uma vez que Jesus enviou o homem e disse-lhe para ir descansado que o seu criado estava curado. Assim o milagre serviu de elemento credibilizador de uma realidade bastante mais abstrata para os ouvintes.

Paralítico de Cafarnaúm (Mt. 9:1-8; Mc. 2:1.12; Lc. 5:17-26) – Jesus utiliza a cura deste homem para ensinar que Ele era Deus e por isso tinha autoridade para perdoar pecados. Ao mesmo tempo aproveita para lhes explicar que ele sabia mesmo o que eles dissessem no mais oculto.

Jesus fez o que não era suposto fazer – perdoar os pecados do homem; contudo, não fez de imediato o que todos esperavam que ele fizesse – curar o paralítico.

Nesta fase do seu ministério era necessário explicar quem Jesus era afinal. Todos já tinham visto que Jesus tinha poderes sobrenaturais, por isso curava. Nesta fase do ministério Jesus começou a explicar quem ele era e de onde vinha este poder. É neste contexto que se apresenta como Deus, tendo a mesma facilidade para perdoar pecados como para curar.

A Seara e os ceifeiros – Mt. 9:37-38; Lc. 10:2 Jesus havia feito muitos milagres e por muitas vezes entrara nas sinagogas para ensinar o povo. Agora ele olha para a multidão que o seguia e explica aos seus discípulos acerca da multidão. Compara-a a uma seara, diz-lhes que é grande mas que faltam os ceifeiros. Por esta altura, no tempo da ceifa os ceifeiros eram assalariados ao dia para colherem o cereal. Este trabalho era feito manualmente e se o cereal não fosse apanhado por falta de ceifeiros acabaria por apodrecer no campo. Jesus olha para a multidão sedenta e compara ao cereal, contudo começa a instruir os seus discípulos que se não existirem meios humanos muitas daquelas pessoas irão perder-se. Ainda hoje Jesus cheio de compaixão continua a olhar para os campos, as pessoas e a procurar ceifeiros que possam recolher o cereal antes que venha a ser tarde demais.

Jesus é convidado a comer por um fariseu quando uma mulher vem para ungir Jesus (Lc. 7:36-50)

Aqui encontramos um grande contraste. Por um lado um homem que procurava um Jesus exclusivista, que só deveria juntar-se com os bons, por outro lado uma mulher pecadora que vê em Jesus solução para a sua vida.

Esta mulher procurou evidenciar o seu amor pelo mestre pela sua atitude distinguindo-o com o unguento.

“Ao se abaixar e se inclinar sobre os pés de Jesus, a mulher de repente tornou-se o foco da atenção de todos. A maneira de cada um interpretar o seu ato, e as conclusões a que chegaram, nos ensinam mais sobre cada pessoa do que sobre esta mulher.

O Fariseu Simão rapidamente lhe coloca um epíteto: ela é uma pecadora e, a partir daí, chega a uma série de conclusões rápidas, e aparentemente lógicas. Se Jesus fosse um profeta, Ele saberia que espécie de pessoa ela é. E, se Jesus fosse uma dos profestas de Deus, certamente não iria permitir ser tocado por uma pecadora. Para o fariseu, a conclusão inevitável era que Cristo não era um profeta e, certamente, podia falar ou agir em nome de Deus.

O problema da sua lógica é o mesmo que encontramos em vários de nossos argumentos. Ele está baseado em premissas que estão assumidas silenciosamente. Estas premissas devem ser examinadas antes que permitamos que a razão nos conduza a alguma conclusão.

A sua suposição aqui está arraigada em sua própria abordagem da religião. Como todos os demais, Simão acreditava em um total compromisso com as leis da pureza ritual que gerações de rabinos haviam extraído das leis prescritos do AT. A pureza ritual exigia qua a pessoa que havia sido separada para Deus fosse isolada de tudo que fosse impuro. Portanto, Simão automaticamente inferiu que, como a mulher era uma pecadora, a única maneira apropriada de se relacionar com tal pessoa era rejeitá-la e se afastar, ou então ser contaminado.

Jesus agia de acordo com um conjunto de suposições completamente diferente. Ele via a mulher como uma pessoa, não como um objeto. Ele via com compaixão e amor, sem desprezo ou condenação. Para Ele, a santidade não era uma coisa negativa, mas um poder positivo e dinâmico. As atitudes daquela mulher demonstravam uma resposta a Ele que havia prometido uma transformação interior – uma transformação que tornaria o passado daquela mulher irrelevante e o futuro brilhante.

A verdade é que esta mulher mostrou-se pouco importada com tudo o que não fosse a sua oportunidade de estar com Jesus. Começou por infringir as regras da decência de uma mulher honrada uma vez que soltou os cabelos em público, chorou daquela maneira aos pés de um homem e gastou um unguento daqueles, que custava uma fortuna, de qualquer maneira.

O que parece é que ela já tinha ouvido Jesus, que seus pecados já haviam sido perdoados e que o queria honrar o melhor que ela sabia e conseguia.

Dada a incompreensão do anfitrião Jesus recorre mais uma vez a uma parábola.

“É claro que nesta parábola, Deus representado pelo credor, e, os dois devedores, Simão e a mulher que estavam presentes. Simão, que tinha a luz da lei, e que, em consequência de ser um fariseu, foi obrigado a abster-se de iniquidade exterior, pode ser considerado como o devedor que devia apenas cinquenta dinheiros, ou denários. A mulher, que deveria ser uma pagã, não tendo estas vantagens, não tendo nenhuma regra para regular suas acções, e não contendo as suas más inclinações, pode ser considerado como o devedor que lhe devia quinhentos dinheiros, ou denários. E quando ambos foram comparados, a dívida Simão com Deus pode ser considerada, em referência à dela, como 5-50. No entanto, apesar desta grande disparidade, ambos eram insolventes. Simão, o fariseu religioso, não podia mais pagar os seus cinquenta a Deus e a mulher pagar os 500, e, se ambos não pudessem ser perdoados pela misericórdia Divina, ambos deveria, finalmente perecer. Porque Ele gentilmente perdoou a ambos e passaram a não ter nada a pagar.”

A natureza de Jesus é posta em causa pelos fariseus (Mt. 12:22-32; Lc. 11:14-23)

Os fariseus contestaram o poder de Jesus de expulsar demónios dizendo que era pelo poder de Belzebu, príncipe dos demónios. Era o mesmo que dizer que Jesus não era o enviado de Deus. Aproveitando esta controvérsia Jesus introduz uma temática importante. Falando acerca da blasfémia contra o Espírito Santo. Na verdade eles estavam blasfemando de Jesus, associando-o com o príncipe das trevas, quando Jesus é o filho de Deus.

A multiplicação dos pães Mt. 14:13-21; Mc. 6:30-44; Lc. 9: 10-17; Jo 6:1-14

Esta passagem, abordada pelos quatro evangelhos deixa-nos uma verdade prática que Jesus queria legar à multidão que o seguia: A sua suficiência e cuidado com os que o seguiam. É notório o conselho dos discípulos para que despedisse a multidão para que cada um pudesse prover para si o que necessitava para o seu sustento, contudo Jesus disse aos seus discípulos: “dai-lhes vós de comer”. Jesus pretendia ensinar o povo que com Ele nada lhes faltaria, à semelhança do que encontramos logo no princípio do Salmo 23, mas ao mesmo tempo Jesus queria ensinar aos discípulos que enquanto servos de Deus seriam utilizados para prover tudo o que era necessário para o povo, ou seja, Jesus iria alimentar o povo através do povo. Este ensino continua válido. Ainda hoje Jesus tem tudo o que nós precisamos, mas utiliza pessoas para alimentar pessoas. Utilizou os discípulos para organizarem os grupos, procederem à distribuição, descobrirem quem poderia contribuir com um pequeno lanche e depois fez o que eles não podiam fazer, multiplicou o pão e o peixe e como sempre acontece quando Deus abençoa, sobrou e foram também os discípulos incumbidos de recolher.

No outro dia lá andavam todos à procura de Jesus, era uma multidão eufórica, impulsionada pela capacidade de Jesus multiplicar os pães. Talvez pensaram: este é o rei que queremos e que nos voltar a dar a prosperidade dos tempos de Salomão. Jesus vai contra esta ideia com uma frase contundente: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna”; aqueles homens tinham andando à procura de Jesus com o seu interesse centrado na comida que perece, ou seja, no pão e nas suas necessidades imediatas, mas Jesus queria mostrar-lhes que existia muito mais pão para comer do que o pão que mata a fome no momento.

Quando Jesus os tenta levar para a esfera espiritual escapam para a esfera religiosa, materializada na pergunta: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” Eles estavam à procura de mais um ritual ou algo semelhante para que através de uma nova prática pudessem obter o favor da divindade para as suas necessidades do momento, mas Jesus queria apresentar-lhes a verdadeira obra de Deus que não está relacionada com algum tipo de religiosismo uma troca de favores entre Deus e o homem mas do acesso a Deus por intermédio da fé em Jesus que foi enviado do Pai.

Surge então a busca de um ponto credibilizador: “Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto…” Várias vezes foi pedido um sinal, como forma de o experimentar. Na verdade Jesus fez imensos sinais, ou que poderemos dizer da multiplicação dos pães, das curas de todo o tipo de enfermos e tantos outros sinais que Jesus fez, mas mesmo assim a questão era: “queremos um sinal ao nosso gosto para podermos crer em ti”.

Apesar de terem sido saciados pela multiplicação dos pães ao ponto de ter sobejado tanto, mesmo assim vão buscar o exemplo do maná do deserto como que dizendo: Moisés é que nos saciou. Serviu então este ponto para Jesus lhes explicar que existe um outro tipo de pão, o que desce do céu, Ele mesmo; contudo os judeus concluíram: este é o filho do carpinteiro, não pode ser o enviado de Deus, começando a criticar e duvidar até chegar ao fim com a afirmação “duro é este discurso, quem o pode ouvir?” Foi uma afirmação triste por se traduzir numa forma de rejeição de Jesus como o filho de Deus.

Jesus anda por cima do mar Mt. 14:22-36; Mc. 6:45-56; Jo. 6:15-21

Jesus tinha acabado de multiplicar os pães e retirou-se para orar. Na mente das pessoas não faltava quem o quisesse fazer rei. Estavam a fazer planos para desfrutarem das capacidades de Jesus no ponto de vista humano. Os discípulos desta vez viajavam no barco a sós, pois Jesus tinha ficado num lugar à parte para poder estar em oração.

O mar tinha uma conotação com um poderio destrutivo e misterioso. Agora no meio deste mundo misterioso como o mar, agravado pelo fato de naquele dia se estar a mostrar complicado, surge um vulto no horizonte a caminhar sobre as águas e certamente no seu íntimo logo surgiu a ideia: logo agora que Jesus não está connosco!

Os discípulos já tinham aprendido que quando Jesus estava no barco, mesmo que sobreviesse a maior das tempestades poderiam contar com ele. Agora Jesus queria ensinar-lhes que era tão poderoso que a presença física não era necessária porque sendo Deus poderiam sempre contar com o seu auxílio, mesmo na hora da dificuldade eles não ficariam sós.

“A interpretação e registo de Jesus andar sobre o mar (Jo. 6:17-22) é feito de modo judaico, derivado de uma das sete regras interpretativas de Hillel. Dito de modo simples, este princípio diz que tudo o que pode ser dito de A pode ser igualmente de B. No Antigo Testamento, Javé (Deus) andava sobre o mar (veja Jó 9:8; Sl 77:19). Em Êxodo Rabá, um comentário sobre o livro de Êxodo, a mesma crença é divulgada. Assim, visto que Jesus anda sobre o mar, Ele também é divino. No ambiente do judaísmo dos dias de João, o facto de Jesus andar sobre o mar seria imediatamente relacionado com o Javé das escrituras”

Quando Jesus se identifica utiliza a expressão ego eimi que aparece vulgarmente traduzida por sou eu, relega-nos para ou grande “EU SOU”, no fundo Jesus estava dizendo Eu sou Deus, não sou um super-homem, sou Deus. Logo depois desta afirmação vem a verificação da aprendizagem com o texto de Mt. 14:33, onde os discípulos rendem adoração a Jesus, algo que um judeu só faria a Deus e expressam mesmo “és verdadeiramente o filho de Deus”.