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Foi na Ásia Ocidental que nasceu não só a civilização ocidental mas também os primeiros sistemas de escrita, cerce de 3100 a. C.


“De entre os vários tipos de escrita comunicacional, cabe destacar os mais conhecidos: – A milenar escrita Cuneiforme, fundamentalmente constituída por gravações em pedra onde eram feitos registos relativos a diversas situações da vida quotidiana. Esta escrita nunca recebeu grande importância por parte dos historiadores por forma a fixá-la no tempo e a datá-la, se bem que se saiba que deve derivar de uma escrita pictográfica mais antiga denominada Warka, gravada em placas de argila encontradas no Templo da cidade de Uruk, a sul da cidade de Bagdade. – A escrita Pictográfica, que parece responder a necessidades totalmente diferentes das que iriam provocar o surgimento da escrita fonética. Ou seja, observando os desenhos e gravuras feitos em cavernas de lugares distantes, torna-se perceptível a importância da necessidade de comunicação e de registo de pensamentos e sentimentos, até mesmo entre os povos mais primitivos – símbolos gráficos que representam animais, homens-bichos e rituais voltados para as culturas próprias dos seus autores traduzem já uma representação, por assim dizer, do sistema de escrita. – A escrita Mnemónica que, aproximando-se da escrita pictográfica, se traduz por um amplo conjunto de sistemas variados, constituídos quer por cordões formados por fios de lãs de cores diversas, com nós combinando com a cor do cordão (para se obter uma representação simbólica das ideias e do seu encadeamento), quer por colares de conchas justapostas cujas combinações formam figuras geométricas, chegando alguns deles a empregar seis ou sete mil conchas. A escrita mnemónica distingue-se da Escrita propriamente dita por servir apenas para representar figurativamente uma só ideia, um só conceito: por exemplo, constitui-se um sistema, formado por lãs ou conchas, representando um “machado” pretendendo-se que signifique unicamente “guerra”, e assim sucessivamente. – A escrita Hieroglífica que, significando “escrita gravada”, pode ser utilizada em três vertentes: a sagrada, a reservada normalmente aos sacerdotes e a destinada à redacção de cartas, recebendo cada uma delas três nomes diferentes, respectivamente, hieroglífica, hierática e epistolográfica. Este tipo de escrita existiu durante cerca de três milénios e sofreu algumas modificações, atribuindo-se à civilização egípcia o seu uso mais frequente.

O momento mais importante da História da escrita relaciona-se com o facto de os Gregos terem desenvolvido um alfabeto que pretendia expressar os sons individuais do idioma por meio de signos consonânticos ou vocálicos. Desde então, e até à actualidade, nada de novo sucedeu no desenvolvimento estrutural da Escrita: utilizam-se as consoantes e as vogais do mesmo modo que o faziam os Gregos antigos. Assim, se o alfabeto é definido como um sistema de signos que expressam sons individuais da fala, o alfabeto grego é certamente aquele que, justificadamente, merece tal denominação.

Embora os pesquisadores atribuam a criação do alfabeto à civilização egeia – de quem os gregos e os fenícios teriam recebido o alfabeto e, mais tarde, transportado para o ocidente e o oriente onde foi sofrendo algumas transformações, datando o seu aparecimento de aproximadamente 900 anos antes de Cristo – terá sido apenas nos séculos IX e VIII a. C. (numa data difícil de fixar com exactidão, a chamada “Época Obscura”) que os gregos o tomaram e modificaram, dotando-o de vogais, e inaugurando, assim, o aparecimento de uma escrita fonética.

A escrita fonética constituiu uma verdadeira revolução na cultura grega da antiguidade, de tal forma que possibilitou a ampla difusão da escrita a praticamente todos os estratos da população.

A importância extrema deste alfabeto grego ficou a dever-se, essencialmente, ao facto de as palavras poderem ser escritas tal como soavam, ao mesmo tempo que possibilitava que a escrita se integrasse nos hábitos culturais, facto para o qual também muito contribuiu o aparecimento de novos meios de escrever, novos objectos de escrita – a pedra, o bronze, o chumbo, o ouro e a prata, por exemplo, passavam agora a poder ser substituídos por outro tipo de material, tal como a cortiça, os metais mais brandos e o papiro importado do Egipto que possibilitava uma cómoda circulação da escrita.

Há ainda que ter em conta o facto de que a livre circulação de escritos técnicos em rolos de papiro proporcionou a importação e assimilação de todas as técnicas geométricas e astronómicas egípcias e babilónicas: a geometria oferecerá um modelo de mecanismo de abstracção donde sairá a filosofia; a astronomia possibilitará o estabelecimento dum princípio geral de orientação, tanto espacial (através dos astros, de extrema importância para a navegação) como temporal (mediante a criação de um calendário, o que permitiria o estabelecimento de períodos concretos).

Embora a escrita já fosse utilizada na Grécia desde os séculos XII-XI a. C., considera-se como certo que a escrita alfabética não se popularizou até se atingir, provavelmente, o século VIII e VII a. C. Sintetizando, poder-se-á dizer que o trânsito da oralidade para a escrita teve uma importância vital para o surgimento do chamado conhecimento, que se viu favorecido pelos próprios avanços da linguagem e dos meios para exprimi-la.

Efectuar uma transmissão de conteúdos de forma objectiva (e revisível tempos depois) marca, assim, uma brutal diferença em relação à pura e simples transmissão de ideias através da oralidade, que nada fixava, para além de que o texto escrito aponta para o objectivo, enquanto que o falado é apenas ouvido e refere-se ao subjectivo.

A partir daqui, todos estes conhecimentos poderiam ser transmitidos e fixados mediante a escrita.

A escrita, entendida pela sua generalidade, é constituída por números: número de letras que formam sílabas, número de sílabas que formam palavras, número de palavras que formam frases, número de frases que, por vezes, não são suficientes para se exprimir tudo o que se quer dizer, e daí então o número de sons ou elementos fonéticos.

Os sistemas de escrita foram-se aperfeiçoando ao longo dos séculos, tendo-se a escrita dividido em vários tipos, desenvolvendo-se, cada um, como um aperfeiçoamento próprio, nada indicando que um sistema tenha surgido como substituto do outro.

O homem, na tarefa de fixar e exprimir o pensamento, percebeu que poderia substituir a imagem visual pela sonora, decompondo o som da palavra. E daí por diante, de posse da letra, todos os caminhos da linguagem estavam abertos, até mesmo a compreensão de outras línguas desconhecidas – daí advindo o surgimento de um sistema fonético.

Os suportes materiais que contribuíram para o desenvolvimento da escrita e do conhecimento passaram pela importância dada a cada um no seu tempo: a produção do papiro (egípcio) e a popularização do pergaminho, como meio mais subtil de fixar texto. Depois da fase inicial dos séculos que se seguiram, a escrita foi-se desenvolvendo e desenvolvendo o poder das cidades, povos e nações, através de cartas, manuscritos, etc. E os escritos foram-se desenvolvendo e aprimorando com a fabricação do papel e, mais tarde, com as encadernações, registando as grandes ideias, os factos históricos, os pensamentos e a história dos seus pensadores e filósofos.

O papel veio, de facto, substituir o papiro. Criaram-se moinhos de papel que eram oficinas primitivas onde se produzia cada folha, uma a uma. Mais tarde criaram a máquina e esta viria a substituir o homem. Depois veio a Prensa de Gutenberg, até chegarmos ao primeiro livro impresso. De lá para cá aperfeiçoou-se a técnica e a escrita foi tão aprimorada que se criaram jornais, revistas, máquinas de escrever e até mesmo computadores.

Há que ter em conta que, se a passagem do discurso oral para o escrito supôs uma notável alteração dos esquemas mentais subjacentes aos distintos modos de transmissão, a organização do discurso escrito vai, sem dúvida, acompanhada de uma rigorosíssima análise e de uma ordenação muito mais estreita de todo o material conceptual, onde este discurso escrito funciona como um verdadeiro instrumento lógico que confere à inteligência verbal um domínio sobre todo o real retratado. Por outro lado, o distanciamento entre receptor e emissor, que a escrita imprime a toda a mensagem transmitida por este meio, aparece confrontada com a imediata e próxima relação que a oralidade proporciona.

A invenção da escrita e a consequente transformação de um estado de consciência no outro provocaram, indubitavelmente e em definitivo, profundas mudanças nos processos mentais e em todas as estruturas das sociedades.”