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O texto de Génesis capítulos quarenta e quarenta e um, trás à cena um homem de grande importância na história do povo de Israel, e ao mesmo tempo alguém que ocupou o lugar de vizir no Egipto. Enquanto estava preso, dois dos presos apareceram preocupados com sonhos. José prontamente arranjou uma forma de consultar o seu Deus e lhe dar a interpretação pretendida. Mais tarde o copeiro do rei apercebeu-se que o rei estava preocupado e falou-lhe de José. Faraó já se tinha socorrido de quem a principio o poderia ajudar: “e por isso mandou chamar todos os adivinhos e todos os sábios do Egito. O rei contou os seus sonhos, mas nenhum dos sábios foi capaz de dar a explicação.”(Gn. 41:8, NTLH)

Os sonhos desempenhavam um papel importante na cultura egípcia, principalmente porque eram tidos como um meio de comunicação da vontade dos deuses em relação a eventos futuros.

“A constituição de uma chave de decifração dos sonhos pode ser atestada pelo menos desde o Império Médio, sendo utilizada tanto por especialistas laicos como por religiosos.” (Sousa, 2001, p. 791)

Agora o senhor das duas terras ficou diante de um problema. O sonho existia. Era tido como uma comunicação, residia o problema no facto dos sábios e adivinhos do Egipto não encontrarem uma interpretação que o rei pudesse aceitar. A resposta, era algo necessário, uma vez que se tinha sido comunicado pelas divindades era porque a informação deveria chegar desde os deuses até Faraó e para entender tinha que encontrar uma interpretação. Foi então a vez de aparecer José e dada a interpretação satisfatória que deu do sonho ao rei, foi elevado da posição de prisioneiro a um homem especial em quem existe o “Espírito de Deus” (Gn. 41:38, ARC). Uma vez que os sonhos têm origem divina, a decifração necessita de uma iluminação especial, por parte da divindade, sobre o homem. No contexto religioso egípcio, José conseguiu uma informação superior oriunda na divindade. Por isso foi superior aos intérpretes de sonhos, que habitualmente estavam ligados a templos onde era praticada a incubação. Logo, com a falha da sabedoria oriunda nos templos e com o aparecimento de uma sabedoria superior, que faz jus à conclusão faraónica: “Depois disse Faraó a José: Porquanto Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão entendido e sábio como tu.” (Gn. 41:39, PJFA), ou melhor ninguém consegue que as divindades nos sejam tão propícias como tu, por isso passou a ter uma indumentária própria e um estatuto de tal forma elevado que quando passava, as pessoas tinham ordem para se ajoelharem diante dele.

Os templos disputavam a sua importância, pela relevância da divindade a que eram devotos e pela capacidade de comunicação entre os mortais e o divino. Neste caso o resultado foi insatisfatório para todos os que buscavam resposta nos deuses egípcios que foram incapazes de prover uma resposta cabal. No entanto sem templo, imagens ou rituais surge a resposta do único e verdadeiro Deus. Ou seja Faraó, tido como o representante da divindade na terra e sendo ele mesmo considerado divino reconhece José acima de todos os homens e ligeiramente abaixo dele. O rei, enquanto descendente de horus, sendo a divindade enquanto em vida e até após a morte continuará mas agora junto com seus pais Ré e Osíris. Por isso Faraó, filho de Ré, ocupava um lugar que não poderia nunca ser usurpado, dada a consanguinidade com a divindade horus. De forma implícita e à luz da mentalidade egípcia da época ao reconhecer José estava a reconhecer, não o indivíduo em si mas, o Seu Deus.

 

Na competição pela revelação, pelo manifestar sobrenatural, pelo conhecimento extrassensorial, Faraó atribui a vitória a José. Da mesma forma que a “a sacralização do poder assenta mais nos símbolos do poder régio (coroas, ceptros, imagens reais, etc.) que na própria pessoa do rei” (Traunecker, 2003, p. 79), da mesma forma José foi identificado com o sumo-sacerdote das divindades egípcias ao receber o anel, o a roupa e o colar de ouro. A sabedoria de José foi um contributo para que Faraó, conseguisse cumprir a sua função preservar a Maet (equilíbrio), foi por esta razão levado para viver em sua casa.

Para os Egípcios os homens tinham como que níveis, podendo ser totalmente dependentes de outros para se poderem relacionar com a divindade, ou pelo contrário podem vir mesmo a tornar-se deuses, sendo utilizado nestes casos o verbo senetjer, que significa literalmente tornar divino. Que segundo o texto bíblico não parece que tenha sido o caso de José.

Obras Citadas

Sousa, R. F. (2001). Sonhos. In D. Luís Manuel de Araújo, Dicionário do Antigo Egipto (pp. 797-798). Lisboa, Portugal: Editorial Caminho.

Traunecker, C. (2003). Os Deuses do Egipto. (T. L. Castro, Ed., & D. d. Cabral, Trad.) Mem Martins, Portugal: Publicações Europa América.