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O primeiro Homicídio

No capítulo quatro do livro de Génesis encontramos o primeiro homicídio de forma muito resumida, sem grandes pormenores. Apesar disso podemos encontrar, através do relato bíblico algumas conclusões a reter: A primeira – Caim foi chamado a prestar contas da sua má conduta pelo próprio Deus. A palavra “SENHOR”, que aparece na maioria das traduções em Português, é a tradução do orginal יהוה
Jeová. A segunda – ficamos com a ideia que a justiça pelas próprias mãos era algo que Caim temia, ou seja alguém que o encontrasse o tentaria matar como forma de vingar da morte de seu irmão Abel. A pergunta que é dirigida a Deus por Caim em Génesis 4:13 “É maior a minha maldade que a que possa ser perdoada (ARC)” a expressão possa ser perdoada encontrada na palavra
נשׂא
nasá “…é especialmente empregada para designar o carregar a culpa ou castigo do pecado. É assim que Caim diz em Génesis 4:13…” (Harris, Archer, & Waltke, 2005, p. 1004). Como consequência do tamanho desta culpa, Caim tinha a perceção que teria de passar a viver fugido para evitar ser morto. Na sua forma de pensar qualquer que o encontrasse o mataria, por isso denota (no v. 14) a necessidade de se esconder de Deus e dos homens para que conseguir escapar a tal vingança. Era o terror que tinha início na sua própria consciência.

 

Antes do dilúvio

Um pouco na linha do terror que existia na mente de Caím, estava a forma como as pessoas se relacionavam e impunham a sua vontade nos tempos antes do dilúvio, isto pela perceção dos pouquíssimos textos que nos falam desse período.

A descendência de Caim foi caótica. Homens perversos e inclinados a praticar o mal. Caim com sua atitude acabou por perder o temor de Deus na sua vida e assim foi habitar para Node, que significa, terra do vagabundo ou tenebroso ou ainda estremecimento. Se olharmos para os versos, 17 até 24 do capítulo 4, vamos encontrar o ambiente de violência em que este povo vivia. Eram os filhos de Caim, os filhos de um homem violento e que deliberadamente recusou o conselho do Senhor.

Sete era filho de Adão e Eva, tal como Caim, contudo sua conduta era substancialmente diferente. Sete foi uma homem temente a Deus e que levou a sua descendência a fazer o mesmo. Logo ao nascer o seu primeiro filho, Enos, diz o texto sagrado que se começou a invocar o nome do Senhor, logo mais à frente um pouco aparece-nos Enoque a quem Deus o tomou para si, à semelhança do que fez também com Elias mais tarde, por Enoque andar com Deus. Que contraste entre a descendência de Caim e a descendência de Sete.

Quando chegamos ao capítulo 6 de Génesis, diz que os filhos de Deus tomaram para si das filhas do homens, surge agora a pergunta: “Quem são os filhos de Deus e quem são as filhas dos homens?

” Para compreender esta parte, e avaliar as causas deste degenerar completo da raça, temos que obter primeiro a correta interpretação das expressões “filhos de Deus” (האדם
בנות) e “filhas do homem”(האדם
בנות). Três diferentes pontos de vista têm sido acolhidos desde tempos muito primitivos: “filhos de Deus” como sendo: a) os filhos dos monarcas, ou os príncipes, b) anjos, c) os setitas ou homens piedosos; e as “filhas do homem” como filhas a) de pessoas de classe social baixa, b) espécie humana em geral, c) os Cainitas, ou o resto da espécie humana que contrasta com os homens piedosos ou filhos de Deus.

Nestes três pontos de vista, o primeiro, embora seja o utilizado pelo Judaísmo Rabínico Ortodoxo, tem de ser excluído à partida por não utilizado na linguagem daquele tempo e completamente banido da escrita. O segundo, pelo contrário, pode-se defender com dois pontos plausíveis: primeiro, o facto de “filhos de Deus” em Job 1:6; 2:1; 38:7 e em Dn. 3:25 são anjos inquestionavelmente (também אלים
בּני
em Sl. 29:1; 89:7) em segundo, o antagonismo “filhos de Deus” e “filhas do Homem”. Por um lado do contexto e teor da passagem, estes dois pontos poderiam levar-nos à mais natural consideração “filhos de Deus” como anjos, por oposição à do homens e filhas do homem… o termo “filhos de Elohim,” ou “filhos de Elim, é aplicado; mas em Sl.73:15, é endereçado a Elohim, o homens piedosos são chamados “a geração de seus filhos,” isto é, filhos de Elohim, em Dt. 32:5 os israelitas são chamados de seus filhos, e em Os. 1:10, “filhos do Deus vivo;” e em Sl. 80:17, Israel é falado como o filho que foi feito forte. Esta passagem mostra que a expressão “filho de Deus” não pode ser entendida com a mente filológica, antes tem de ser interpretado teologicamente. Além disso, mesmo quando é aplicado aos anjos, é questionável se é no sentido físico ou moral. A noção de que “é empregado no sentido físico como nomen naturae, em vez de anjos como nomen officii, e pressupõe geração do tipo físico”, temos de rejeitar como erro gnóstico, fora das escrituras. De acordo com a perspetiva escriturística, os espíritos celestes são criaturas de Deus, e não foram gerados da substancia divina. (…) Mas se o título “filhos de Deus” não podem envolver a noção de gerar fisicamente, isso não pode ser restrito aos espíritos celestiais, mas aplica-se a todo o ser que porta a imagem de Deus, ou a virtude da semelhança de Deus participando da glória, poder e bem-aventurança da vida divina. (…) A questão quer os “filhos de Elohim” fossem filhos de Deus celestiais ou terrenos (anjos ou homens piedosos da família de Seth) pode apenas determinar-se a partir do contexto e do conteúdo da passagem, é isto que diz, a partir do que é relatado a respeito da conduta dos filhos de Deus e os resultados. É que ligando no se favorece a ideia de que fossem anjos, é o conhecimento exato, que adota este ponto de vista. “Não se pode negar,” diz Deltzsch, “a ligação de Gn. 6:1-8 com Gn 4 necessitamos de supor o casamento (da família de Seth com a família de Caim)” (Johann & Delitzsch, p. Gen. 6:2)

“Não estamos a falar do sentido moral mas do natural;(…)eles olharam e viram apenas a beleza exterior, e cobiçaram: esses “filhos de Deus” não eram anjos nem bons, nem maus, como muitos têm pensado, visto que os anjos são seres incorpóreos, e não podem ser afetados pela cobiça sensual, casar e darem-se em casamento, gerar e ser gerados; nem são os filhos dos juízes, magistrados ou grandes personagens(…) supõe-se que o ato criminoso deles parte no que viram nelas, depois cobiçaram e cometeram fornicação com elas e uniram-se pelo casamento com pessoas que não temiam a Deus; isto poderia apenas ser parcial e não uma corrupção universal, como depois se afirma, contudo igual exemplo tem tido de facto grande influência sobre a população; antes isto não era conhecido na descendência de Seth, os quais desde Enos, tinham começado a invocar o nome do Senhor, Gn. 4:25 dá o titulo de filhos de Deus por oposição de filhos do homem; reclamando a divina adoção, professando ter nascido de Deus, e participantes da sua graça, e dispondo-se a louvá-lo e glorificá-lo. De acordo com escritores arábicos, imediatamente após a morte de Adão a família de Seth afastou-se da família de Caim; Seth pegou nos seus filhos e esposas e foram para uma alta montanha (Hermon), foi lá que Adão foi sepultado, e Caim e seus filhos viveram no vale de Beneá, onde Abel foi assassinado; e eles na montanha eram conhecidos pela sua santidade e pureza, dizia-se que estavam bastante perto dos anjos podendo até ouvir as suas vozes e sua alegria cantando hinos com eles, que os setitas, suas mulheres e suas crianças passaram a ser conhecidos pelo nome de filhos de Deus: e agora estes invocavam o nome do Senhor tanto Seth como os patriarcas que o sucederam, não pensemos que eles desciam o monte e vinham alegrar-se com os Cainitas, contudo no tempo de Jared alguns desceram, e uns atrás dos outros até que se generalizou: e tomaram das filhas bonitas de Caim e sua posteridade fizeram o seguinte: e tomaram esposas de todas as que escolheram; não foi À força, tal como Ezra e Ben gerson interpretam, os Cainitas eram mais numerosos e poderosos do que eles, por isso os Setitas dificilmente estariam com o propósito de fazê-lo pela força mas antes unidos pelo casamento entre ambos, o que os Cainitas não estavam contra também; eles tomaram as esposas com que engraçaram, que lhes agradava o aspeto, sem olharem para o seu carcter moral e cívico, e sem o conselho ou consentimento dos pais e sem consultarem Deus e a sua vontade neste assunto, então pegaram nas mulheres que lhes agradaram, estavam na sua própria vontade e cometeram fornicação, com as Cainitas…” (Gill J. , p. Gen. 6:2)

Tudo parecia estar a correr bem dentre os descendentes de Sete, até ao momento em que eles começaram a casar com as mulheres descendentes de Caim e vice versa, mulheres e homens que não temiam a Deus. Por isso a corrupção entre o homem aumentou cada vez mais até ao dia em que Deus fala com Noé para colocar um ponto final nesta situação através do dilúvio. Dentro deste contexto conseguimos entender que a lei era imposta pela força e pelo mais forte, muitas vezes com os mais fracos a perderem a própria vida. O texto de Genesis 6:11 afirma que a terra estava cheia de violência e 4:23 aparece a conversa de um homem chamado Lameque que conta a suas esposas o facto de ter morto um rapaz porque este o pisara.

 

A regulamentação pós diluviana

A saída de Noé e sua família da arca foi a época para todos os inícios e para recolocar regras que regimentaram em parte a sociedade. A Bíblia afirma que onde não existe lei não existe pecado. Tudo o que foi apresentado foi um código minimalista.

Os documentos antigos que a arqueologia tem recuperado, não são documentos de inovação, mas antes a compilação de leis já em vigor entre os povos, como encontramos na obra dirigida por Jacques Marseille referente ao código Hamurábi: “Foi sobretudo graças à obra jurídica que Hamurábi passou à história: o seu código de leis – na realidade uma coletânea de jurisprudência – é um testamento político destinado a proporcionar aos príncipes futuros um modelo de sabedoria.” (Marseille, 1996, p. 91) Assim o estudo destes documentos ajuda-nos a entender como se vivia nas terras onde os patriarcas peregrinaram.

 

Homicídio

Em matéria de proteção do homem Deus colocou regras bastante precisas. Se o facto de ter existido o dilúvio estava diretamente ligado com a violência do homem contra o seu semelhante, então a primeira lei a ser imposta por Deus prende-se com o homicídio. Assim era exigido que quando alguém tirasse a vida a outrem, os autores desses crimes fossem mortos. Era sem dúvida uma forma de colocar algum temor sobre o indivíduo e limitar a iniciativa homicida. Este princípio foi adotado por vários povos da antiguidade como nos relata uma placa de argila descoberta em meados do século passado: “Um assassínio foi cometido na Suméria cerca de 1850 a.C. Três homens – um barbeiro, um jardineiro e um outro indivíduo cuja profissão não conhecemos – mataram um dignatário do chamado Lu-Inanna. Os assassinos, por uma razão não especificada, informaram então a mulher da vítima, Nin-dada, de que seu marido tinha sido morto. Procedendo de um modo muito estranho, ela guardou o segredo e não informou as autoridades.

Mas a justiça, mesmo nesse tempo, tinha um, braço comprido e certeiro, pelo menos no altamente civilizado estado da Suméria. O crime foi denunciado ao rei Ur-Minurta, na sua cidade-capital de Isin, e aquele levou o caso à assembleia de cidadãos em Nippur, que atuou como tribunal.

Nesta assembleia nove homens levantaram-se para pedir a condenação dos acusados. Argumentaram que, na sua opinião, deviam ser executados, não somente os assassinos, mas também a mulher, presumivelmente porque, tendo guardado silêncio depois de o crime ser cometido, esta podia ser considerada como encobridora.

Mas dois homens da assembleia falaram em defesa da mulher. Alegaram que ela não tinha tomado parte no crime e que, por consequência, não devia de ser punida.

Os membros do tribunal foram da mesma opinião que a defesa. Declararam que a mulher tinha razões para permanecer calada, uma vez que segundo parecia, o marido tinha faltado ao dever de a sustentar. Concluíram afirmando o veredito que «o castigo daqueles que o tinham realmente morto seria suficiente». E consequentemente, só os três homens foram condenados, pela assembleia de Nippur, a serem executados.” (Kramer, p. 84)

Se analisarmos o código de Ur-Nammu, proveniente da terra de Ur dos Caldeus, terra de Abraão, assim como o código de Hamurábi, ou outros códigos da antiguidade mesopotâmica o homicídio era punido com a pena capital.

No Egito as coisas eram bastantes semelhantes. “As punições para crimes menores envolviam imposição de multas, espancamentos, mutilações faciais ou exílio, dependendo da gravidade do delito. Crimes graves, como homicídio e roubo de túmulos, eram punidos com execução por decapitação, afogamento ou empalamento. A punição também podia ser estendida à família do criminoso.” (Manuelian, 1998, p. 358)

Obras Citadas

Gill, J. (s.d.). John Gill’s Exposition of the Entire Bible. e-Sword.

Harris, R. L., Archer, G. L., & Waltke, B. K. (2005). Dicionário Internacional de teologia do Antigo Testamento. (R. Malkomes, Ed., M. L. Redondo, L. A. Sayão, & C. O. Pinto, Trads.) S. Paulo, Brasil: Editora Vida Nova.

Johann, K., & Delitzsch, F. (s.d.). Keil & Delitzsch Commentary on the Old Testament. e-Sword.

Kramer, S. N. (s.d.). A História começa na Suméria. (F. L. Castro, Ed.) Mem Martins, Portugal: Publicações Europa-América.

Manuelian, P. D. (1998). Egypt: The World of the Pharaohs. Cologne, Alemanha: Könemann.

Marseille, J. e. (1996). História do Mundo – Primeiras civilizações das origens a 970 a.C. Queluz: Selecções do Reader’s Digest.