O livro do Reto: Na busca de uma explicação.

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O termo “o livro do reto” ou o “livro do justo” ou o “livro de Jasar” ou o “Livro de Jasher”  surge de forma direta em dois textos do Velho Testamento (Josué 10:13 e II Samuel 1:18), traduzido das diversas formas apresentadas. Champlin escreveu que “É provável que esse livro tenha perecido durante os cativeiros, e que, tirando as duas referências bíblicas a ele, não dispomos de nenhuma informação certa a esse respeito.” (Champlin, 2004, p. 936). Esta é a razão pela qual muito pouca informação exista sobre ele e a que existe assenta, quase sempre, na suposição.

No original, o termo é semelhante, para os dois textos, o que parece instruir uma referência ao mesmo livro, independentemente de ser um livro que existiu fisicamente ou ser um termo poético ou uma expressão para se referir a algo. Na impossibilidade de termos uma certeza do que se trata irei tentar, no entanto, chegar a algumas conclusões a partir do que temos disponível.

Para juntar a estes dois textos, onde literalmente é referido o Livro do Reto pelo nome, poderemos ainda sugerir o texto de I Rs. 8:12,13 que a Septuaginta apresenta como sendo uma citação do livro do Cântico. (Douglas, 1999, p. 949) (Champlin, 2004, p. 1384) (Honeycutt Jr. & Matheney Jr., 1993, p. 197). A palavra que surge para justo é יָּשָׁר enquanto que a palavra cântico é a palavra שִׁיר. Estas duas palavras apenas trocam as duas primeiras consoantes de ordem. Nesta altura, apenas eram utilizadas consoantes na escrita hebraica. Conforme mencionou Hess “…segundo a lxx , oriunda do “Livro de Cânticos”. Cântico” e “Jasher” são soletrados com as mesmas três consoantes, mas em ordem diferente, ‘syr’ ao invés de ‘ysr’.” (s/d., p. 176). Ainda é importante acrescentar que estes três textos utilizam o mesmo estilo poético. Apesar destas três citações que referimos é possível que existam outras ao longo do Velho Testamento que não conseguimos identificar, como admitiu Tenney. “As referências ao livro no AT são feitas de tal maneira que dá a entender que este era muito conhecido e respeitado e, consequentemente, outras referências podem estar presentes no AT, apesar de não serem identificadas.” (2008, pp. 833, 834)

Olhando para os termos no hebraico podemos encontrar o seguinte: No hebraico, o termo סֵפֶר sefer que nestes textos vêm traduzido por livro é um termo de utilização bastante lata, referindo-se sempre a algum registo escrito. Alguns exemplos que podemos encontrar este termo como Livro Ex. 17:14; Is. 30:8; documento de divórcio Deu. 24:1-3; Carta II Rs. 5:6; escritura de compra Jer. 32:11; Auto de acusação Job 31:35. Depois de analisarmos estes textos ficamos com a certeza que a única forma de encontrarmos uma tradução capaz é conhecendo o contexto em que foi escrito. Particularizando podemos dizer que não era um documento ou um escrito, nem tão pouco uma carta, então parece que o termo livro será apropriado. Quanto ao termo יָּשָׁר yashar pode ser traduzido por direito, reto, justo, etc. No dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento podemos encontrar um comentário sobre a ideia de reto ou retidão transmitida por este vocábulo: “Retidão como estilo de vida é característica dos íntegros…” (Harris, Archer, Jr., & Waltke, 2005, p. 684). Esta palavra também pode ser traduzida por estar ou estar direito ou por plano quando usada na forma verbal pode ser traduzida por endireitar. Isto leva-nos a concluir que estamos diante de um documento escrito e que está relacionado com o aquele que é íntegro ou que tem uma vida justa no sentido de direita, correta.

Alguns advogam que este livro  seria “…a fonte ou o registo das informações sobre a derrota infligida por Israel aos amorreus. Ele também registou informações sobre a morte de Saul e de Jónatas às mãos dos filisteus e o lamento de Davi por eles.” (Harris, Archer, Jr., & Waltke, 2005, p. 686). A aceitação desta ideia implica aceitar que o livro de Josué só foi escrito no tempo de Davi ou mais tarde. A ideia de que este livro seja bastante antigo, na forma de uma coletânea, faz sentido quando o vê-mos citado no livro de Josué e nos livros de segunda de Samuel e Primeira de Reis. Isto poderá indicar que esta coletânea poderá ser tão antiga como o Pentateuco ou até anterior. Wiersbe refere-se ao livro como “coletânea de poemas e de cânticos que comemorava acontecimentos importantes da história de Israel.” (2010, p. 297) ou como “…esse livro continha uma coleção de poesias antigas que celebravam acontecimentos de destaque e serviam de fonte de informação para aqueles que mais tarde escreveram nossos livros da Bíblia. Com certeza, era conhecido pelos contemporâneos do escritor.” (Baldwin, 1997, p. 202). A forma poética como o texto de Josué 10:13 é escrito é um contributo que nos atira para a conclusão que este livro seria um livro de poesia antiga “…introduziu uma tradição literária antiga independentemente dos eventos descritos nos versículos anteriores (v. 6-11), porém relacionada com eles. Esta tradição tem a forma de um excerto de poesia antiga (v. 12a-13b) do livro de Jasar (o Reto)…” (Morton, 1994, p. 396)

 

 

Referências

Baldwin, J. G. (1997). I e II Samuel: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova.
Champlin, R. N. (2004). O Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo (Vol. II). São Paulo: Hagnos.
Douglas, J. D. (1999). O Novo Diconário da Bíblia. S. Paulo: Edições Vida Nova.
Harris, R., Archer, Jr., G., & Waltke, B. (2005). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo, Brasil: Editora Vida Nova.
Hess, R. (s/d.). Josué: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova.
Holladay, W. (2010). Léxico – Hebraico e Aramaico do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova.
Honeycutt Jr., R. L., & Matheney Jr., M. P. (1993). 1—2 Reis. Em C. J. ed., Comentário Bíblico Broadman. Vol. III 1Samuel-Neemias (pp. 161-316). Rio de Janeiro: Publicações da Convenção Batista Brasileira.
Kirst, N., Kilpp, N., Milton, S., Raymann, A., & Zimmer, R. (2008). Dicionário Hebriaco-Português & Aramaico Português (21ª ed.). São Leopoldo: Editora Sonodal.
Morton, W. H. (1994). Josué. Em C. J. Allen, Comentário Bíblico Broadman (pp. 347-436 vol. II). Rio de Janeiro: Publicações da Convenção Batista Brasileira.
Tenney, M. C. (2008). Enciclopédia da Bíblia (1ª ed. ed., Vol. III). São Paulo: Editora Cultura Cristã.
Wiersbe, W. W. (2010). Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento: Volume II – Histórico (1ª ed., Vol. II). S. Paulo: Geográfica.

 

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